Um mesmo grito

Já percebeu que os narradores de futebol estão todos iguais?

O narrador. No rádio, ele era um demiurgo, um pintor às cegas que inventava aquilo que ninguém via, e isso fazia dele um improvisador nato. No futebol atual, multimidiático e comandado pela cultura visual, ele é um operador da emoção. Ou melhor, cada vez mais um performer de um teatro emocional.

Mais cedo, assistia a um compilado que reunia gols da rodada da Champions League. Todos os jogos transmitidos pelo mesmo canal/streaming. Resistindo ao máximo aos rabujos que são-me naturais, aguentei até metade do vídeo até sucumbir e desativar o som. O motivo? Todas as narrações são irritantemente iguais. As mesmas escaladas dramáticas, os mesmos crescendos, as mesmas modulações no grito de gol, o mesmo método de grito histérico para transmitir intensidade. Mudavam os jogos, os contextos, os jogadores, os lances, mas tudo era descrito por uma mesma coreografia vocal.

Dentro do jogo, que é em boa parte monótono, o gol é catarse. Uma explosão que se acumula após minutos de expectativas. Já num compilado, a catarse é empilhada e repetida em looping. Parando para pensar, estes vídeos de gols são uma violência simbólica, uma imoralidade neuroquímica equivalente a comer vinte vezes a sobremesa sem a refeição principal. A recompensa doce vira enjôo.

Vozes da consciência dirão: se todos os narradores são do mesmo canal, não é natural que haja um padrão o qual devem respeitar? Correto. E nem por isso faz ficar menos doloroso ouvir trinta minutos dos mesmos gritos agudos, quase infantis, como um garoto narrando seus próprios gols de FIFA no quarto.

Mas isso é só um símbolo por onde eclode uma verdade. Mesmo dentro de um jogo, na longa travessia do rádio ou da TV, acontece uma desconfortável uniformidade. Com o streaming abocanhando cada campeonato de cada país, não deixando nenhum jogo “fantasma”, a falta de variabilidade entre os formatos de locução devia ser previsível se pensarmos em uma coisa chamada coesão do meio. O problema é o formato pelo qual se faz isso: ora padrão narração cinefutebolística para marveloucos, ora narração descolada, cool, da galera digital. Quando se fundem, tá feito. 

Lembro-me de uma entrevista do saudoso Silvio Luiz discorrendo sobre sua técnica de narração ao que migrou do rádio para a tevê, e explicando o porquê de não gritar gol como todos. Simples: “estou na TV. Tem imagem. O espectador tá vendo que foi gol”.

Sua técnica explica perfeitamente a lógica da tevê, ou pelo menos a da antiga tevê. Infelizmente, explica também o porquê de ter saído de linha nos últimos anos de carreira. Por convicções ou por cacoetes antigos, Silvio jamais conseguiu se colocar no perfil do jovem maneirão que narra um épico. Ao contrário, seus últimos trabalhos se assemelhavam mais ao de um comentarista do campeonato anual de truco de Caraguatatuba.

Tem quem diga que os narradores mais antigos não se surpreendiam tanto assim com os lances, porque lá atrás o futebol produzia contingente maior de momentos distintos… quem sabe. Mas a questão que faz com que os microfoneiros da atualidade se esgoelem a cada meio lance é menos por deslumbramento e mais por gramática.

O futebol na chamada economia da atenção é um grito estridente, histriônico, caricato da emoção, do início ao fim, sem intervalos. O gol que é pós-produzido, pronto para ser remixado no TikTok; a roupagem estética que imita o videogame – e não mais o contrário; e a narração, este gorduroso fast-food sonoro, tudo é um convite sensorial, uma experiência imersiva para explorar um mundo fabuloso que, um dia, foi alcançado sem o mínimo esforço. 

Se é para ter um narrador gritando no meu ouvido, que seja por descrição, e não por coerção emocionada.

Ou então, meus camisas 10 viram reis, e os 9, valetes. Truco!

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