“A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio.” – Carlos Drummond de Andrade.
Diria Hegel que a consciência de si só atinge a sua satisfação numa outra consciência de si. Edgar Morin, através de seu Pensamento Complexo, foi por caminho similar, mas mais geral: “o indivíduo produz a sociedade, que produz o indivíduo”. Após a apoteótica virada contra a Inglaterra pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, penso que o sucesso de Messi e da seleção argentina pode ser explicado, talvez acima de tudo, pela fé mútua que aquele e esta passaram a nutrir por si nos últimos cinco anos.
Lionel Messi teve, digamos, azar retumbante com sua seleção na década passada. Não apenas isso, não é nenhum absurdo dizer que, com exceção da Copa América de 2016, La Pulga não repetia com a camisa alviceleste as performances magistrais pelo Barcelona. Existe alguma razão para isso? Repito: fé.
Existiu sempre uma desconexão entre Messi e Argentina. Anímica, técnica, tática, psicológica; como um casamento fadado ao fracasso, dois elementos que não se misturam nem com força bruta — chegar a três finais em três anos seguidos mostram a força que ambos faziam, mas a derrota vinha quase que ao natural.
Comparemos com o que víamos dele pelos blaugranas. Messi foi tratado como prioridade absoluta de La Masia desde que lá pisou. Do topo à base, o Barcelona confiou nele. Não esqueçamos de Pep Guardiola, em sua primeira reunião com o elenco culé, deixando claro para todos que apenas Messi seria insubstituível; não à toa foi a primeira temporada de melhor do mundo do argentino. O coletivo confiava em Messi — e aqui não falo meramente de estar certo de que se deve passar a bola para ele, mas sim em ter uma equipe taticamente montada para maximizá-lo de área a área. Como consequência, Messi confiava no coletivo. Similar evento aconteceu com o trio MSN.
Essa relação de confiança raramente se viu na seleção argentina. Seja por incômodo de companheiros, por esquemas que passavam longe de tirar o melhor dele ou por uma cobrança externa que exigia uma personalidade que (ainda) não tinha, Messi nunca se viu confortável no contexto de seu selecionado. Claro que parcialmente a culpa também foi dele; afinal, perder um pênalti em final de Copa América não é exatamente o tipo de evento em que se possa delegar a culpa. Assim, a conexão Messi-Argentina era nula, aparentemente inconciliável de ambas as partes.
Então, quando isso começou a mudar? A resposta é: em 2019, com a efetivação de Lionel Scaloni e sua comissão técnica.

“Eu quero dar a vida a ele, eu quero morrer por ele.” – Dibu Martinez sobre Messi, em 2022.
“[Eu] iria à guerra por ele se ele pedisse.” – De Paul sobre Messi.
“Conversei com Pablo [Aimar] e Walter [Samuel]: note que Lo Celso joga bem, De Paul joga bem, Paredes joga bem, Palacios joga bem, Messi joga bem. Jogar bem significa que se reúnam, que se associem; se pedirmos velocidade ou passes de 40 metros, não funciona. […] Nós mostramos aos jogadores que quando trocávamos mais de 10 passes, logo era situação de gol. Sempre! Era incrivelmente real.” – Lionel Scaloni, sobre o estilo de jogo da seleção argentina.
Com a chegada de Scaloni e sua comissão em 2019, ventos de mudança prenunciavam um novo horizonte para a seleção argentina — ou melhor, um horizonte reaberto, após anos de obscuridade. Com a contratação de César Luis Menotti, campeão mundial em 1978, como Diretor de Seleções e o início da renovação de uma geração, um novo inédito se abria.
Scaloni, junto a Aimar, Samuel e Matías Manna, foram responsáveis por resgatar uma forma de se jogar futebol há muito descartada na albiceleste, chamada de La Nuestra. Dito resgate veio não apenas na formação, no planejamento tático; acima de tudo, trata-se de uma mudança de linguagem, de discurso. As relações dos jogadores entre si e da seleção com seu povo tomam centralidade discursiva para Scaloni, Manna e cia.
Os exemplos disso são inúmeros. Scaloni posicionando o humano como fundamental, acima de qualquer esquema tático; Manna explicitando que “um churrasco é mais importante [para o grupo] que vinte chamadas em vídeo”; Messi dedicando a vitória contra a Inglaterra para o sofrido povo argentino; e assim por diante. La Nuestra não é apenas sobre juntar organicamente meio-campistas talentosos tabelarem e interagirem entre si, mas também sobre ser Um com seu país — afinal, não é “a minha”, mas sim “a nossa”.
Tendo em mãos uma comissão técnica que compreende como tirar o melhor de seu elenco e como honrar seu passado, bem como uma nova geração cada vez mais disposta a matar e morrer pelo escudo que carregam e pela terra que representam, a seleção argentina se encontrava mais próxima da glória a cada dia. A fé numa forma de se jogar futebol, de ver o mundo e de se conectar com o povo argentino passou a municiar a Scaloneta de uma fortaleza espiritual, mental, técnica e anímica ímpar.
Com Messi, o gênio em eterno conflito com a camisa azul e branca, não foi diferente. Percebendo que algo ao seu redor começava a mudar, Lionel se permite abrir suas asas — a partir de 2020, vemos um Messi muito mais passional, batalhador e feroz dentro e fora de campo.
Não mais um capitão por mera referência, tornou-se o general de um jovem exército disposto ao sacrifício por ele. De Paul, Dibu, Mac Allister, Enzo, Di María, Scaloni… Todos seus companheiros passaram a nele depositar uma fé inabalável, quase devocional. Finalmente banhado de fé, Messi passou a ser capaz de retribuí-la.
Sua retribuição se viu na fantástica edição de Copa América que fez em 2021, onde todas suas frustrações, seus medos e angústias desapareceram nos gramados do Maracanã. A fé bidirecional entre Messi e seleção foram imediatamente transmitidas ao povo argentino, que, como resultado, também fez de seu craque e sua seleção seus objetos devocionais. Depois, a Finalíssima; em seguida, o apogeu com o título mundial em 2022. Com isso, todos pensaram que aquela equipe pararia por ali, que chegaria acomodada à Copa de 2026, que Messi não performaria em alto nível. Esquecem, porém, que não há limites para a fé humana: escrevo esse texto logo após a apoteótica virada frente aos ingleses, garantindo os hermanos novamente na decisão do maior torneio da Terra.
O sucesso argentino que vemos hoje é, acima de tudo, o feliz resultado do contínuo exercício da fé. A fé de um grupo numa forma, numa tradição há muito descartada; a fé de um elenco em seu ídolo, e de um ídolo em seu elenco; a fé de um povo no seu passado, progressivamente rememorado por uma seleção que desafia as tendências do presente; a fé de que as relações humanas podem estar novamente no centro do discurso futebolístico; a fé do indivíduo no coletivo e do coletivo no indivíduo.
É, portanto, também pela fé que a Argentina vence. E é pela fé que Lionel Messi se tornou, após uma década e meia de sangria, o símbolo de um país que pôde voltar a sonhar.

