
Decidi começar a escrever esse texto antes mesmo da final da Copa do Mundo ser disputada. Meus sentimentos seriam os mesmos à despeito de quem a vencesse. Este texto é uma carta de agradecimento — ou uma carta de amor, o leitor decide — à Argentina. Principalmente pelo que ela representa. Ela representa uma equipe fiel à própria identidade: joga exatamente da forma como uma seleção argentina deveria jogar, de acordo com sua tradição, sua história e sua cultura. E que também muitas coisas. A primeira é que se pode ser único, mesmo em um mundo de excessiva otimização e homogeneização — inclusive no futebol. Pode-se jogar de maneira diferente, mesmo que a maioria das pessoas não compreenda com precisão o que se faz dentro de campo. A segunda é nunca desistir. Pode soar como um clichê, mas eles demonstram uma resiliência mental raríssima em qualquer esporte. Demonstram emoções, um vínculo especial dentro da equipe, algo que também é incomum entre atletas de elite, que normalmente são treinados para não demonstrar sentimentos, para serem robóticos, frios, sem nada de especial. Nesse aspecto, os argentinos são uma lufada de ar fresco. A terceira lição é sobre a forma como representam seu país e seu povo. A maneira como cantaram o hino antes da semifinal contra a Inglaterra não acontece simplesmente porque alguém mandou os jogadores entrarem em campo e cantarem com entusiasmo. Tampouco acontece depois de um vídeo motivacional extraordinário. Não, acontece quando se sente a importância do momento. Canta-se assim quando o país significa muito mais para os jogadores do que apenas vestir a camisa e cantar um hino.
Será que é coincidência o fato de nenhum treinador estrangeiro jamais ter conquistado uma Copa do Mundo?
Isso nunca aconteceu; porque vencer uma Copa vai muito além de entender de tática, estratégia, jogadores ou de saber lidar com a imprensa. Antes de tudo, é preciso ser fiel à identidade do país. É preciso compreender seu povo, sua maneira de pensar, suas tradições, sua história, sua atitude e sua cultura. Sem isso, é possível alcançar bons resultados, mas eles serão apenas mais uma estatística ou mais um ponto amostral na história do futebol. Nada além disso.
Lautaro chama a câmera para chegar mais perto. Coloca uma cumbia para tocar. Em seguida aparecem imagens do churrasco — ou, como chamam os argentinos, o asado. No esporte moderno, onde cada macronutriente é contado, cada gota de água é calculada, cada minuto do dia é programado e cada partícula do sangue é medida, eles simplesmente se sentam com amigos e familiares para aproveitar uma boa carne e estarem juntos. É claro que todas essas coisas são importantes. Mas elas não são tudo. Num futebol onde se acredita que existe apenas uma maneira correta de fazer as coisas, eles mostram que existem outros caminhos. É como mostrar um dedo do meio para o mundo e dizer:
“É, pessoal, nós vemos como vocês fazem, mas esse não é o nosso jeito.”
É curioso como a sociedade atual — em especial no futebol — não consegue racionalizar essa atitude e, portanto, não consegue processá-lo. Não existe uma explicação simples. Estamos acostumados a acreditar que tudo precisa de uma razão. Tudo deve ter uma explicação perfeita. Tudo precisa ser controlado. Tudo precisa ser compreendido. Tudo precisa ser definido. Você faz X e então acontece Y. Se esse número é Z, então aquilo acontecerá. Mas existem dimensões que simplesmente não podem ser delimitadas com clareza. E qual costuma ser a reação diante dessa impossibilidade?
“Foi apenas sorte. Nada além disso.”
Para essa ideia, sou eu quem mostra o dedo do meio.
“”Para nós, os momentos dos asados são os melhores de todos. Vocês nunca mais vão viver momentos como esses. Estar com seus companheiros tomando mate, jogando truco… Se a única coisa em que você pensa é no jogo, acaba se esgotando. Para mim, isso é fundamental; são coisas que valorizamos muito.”
“Para mim, esses momentos, os momentos como aquele após a vitória contra o Egito, são essenciais, são algo que nós valorizamos muito. Sou treinador por coisas como essas, essa química de grupo, celebrações, conversas, risadas com os companheiros. Não só por questões táticas.”
— Lionel Scaloni
Também vale para a forma como eles jogam. Li muita bobagem sobre o estilo de jogo da Argentina, sobre as diferentes narrativas que tantos tentam construir a seu respeito. Alguns dizem que é apenas sorte. Outros afirmam que contam com a ajuda da arbitragem ou que tudo se resume à magia do Messi e a uma espécie de “fugazi” — algo ilusório, difícil de explicar. Como a Seleção Argentina não joga de maneira convencional, a maioria das pessoas sequer possui o vocabulário necessário para descrevê-la. É preciso analisá-la, observá-la e compreendê-la de outra forma. Para mim também foi um desafio. Até 2023 eu não conseguia entender seu jogo nem todas as suas dimensões. Não digo que hoje compreendo completamente, mas sinto que desenvolvi uma capacidade muito maior de processar o que acontece em campo. Não me aprofundarei nisso agora, mas a língua inglesa é extremamente limitada para expressar a profundidade que existe por trás do futebol sul-americano. Um exemplo: aquilo que brasileiros e portugueses chamam de “tabela” — uma metáfora —, em inglês é reduzido ao simples “one-two”, uma forma racional de descrever uma troca rápida de passes entre dois jogadores. Já em húngaro, minha língua materna, existe a palavra kényszerítő, que significa “forçar”. A ideia é de que o defensor é obrigado a tomar uma decisão: acompanha a bola ou acompanha o adversário. Como o vocabulário dominante do chamado jogo posicional (positional play) não consegue explicar adequadamente a forma como a Argentina atua, muitos simplesmente recorrem ao termo “vantagens socioafetivas” (socio-affective advantages). É uma expressão bonita que destaca que esse grupo se entende muito bem pois jogam juntos há muito tempo, e se tornaram grandes amigos também fora de campo. Em parte, isso é verdade. Mas a realidade é, ao mesmo tempo, mais complexa e mais simples. Sem contar que esse tipo de vantagem também existe em equipes que praticam o jogo posicional.
Quando se observa uma equipe comum — seja um clube ou uma seleção — percebe-se que em geral ela joga em um ritmo relativamente alto e constante. Podemos chamar isso de jogo de dois toques — ou, como gosto de brincar, “el dostoquismo”. A prioridade é dominar a bola e passá-la o mais rapidamente possível para alcançar determinados espaços ou jogadores previamente definidos. Como consequência desse ataque em ritmo único, procura-se pressionar o adversário e desgastá-lo — exatamente como a Espanha fez muito bem na final. Costumo dizer que, nesse modelo, os gols surgem da própria pressão exercida — cruzamentos, por exemplo — e não necessariamente das quebras de linha produzidas durante a construção. As equipes sul-americanas, por outro lado, conseguem brincar com o ritmo da partida. Às vezes desaceleram. Então, de repente, aceleram bruscamente. É um jogo de altos e baixos. Nada permanece constante. Esse estilo surgiu como resultado de diversos fatores, que lhes permitem criar e reconhecer momentos — gatilhos, sinais — em que mudam inesperadamente o ritmo do jogo. Além disso, possuem uma sensibilidade especial para identificar tais momentos. É exatamente como a própria vida; nada funciona em linha reta. A obsessão pela otimização nos faz acreditar que a vida é uma linha ascendente, contínua e exponencial. Mas não. Ela é cheia de altos e baixos. Assim como o futebol.
A circulação da bola também faz parte do jogo da Argentina. Mas eles a utilizam de maneira diferente. Hoje em dia, a maioria das equipes faz circular a bola para empurrar o adversário para trás, controlar o jogo obrigando-o a defender perto da própria área, criar melhores momentos de transição e gerar situações de um contra um para os pontas. Originalmente, porém, a circulação servia para movimentar a defesa adversária e criar espaços pelo centro. Hoje isso acontece cada vez menos. A maioria das equipes prefere atacar pelos corredores laterais porque acredita que “não existe espaço pelo meio”. Isso não é verdade. O que acontece é que elas simplesmente não querem correr o risco de atacar por dentro. Existe uma ideia equivocada bastante difundida: atacar por onde há espaço. Pelas próprias leis e dinâmicas do futebol, o espaço estará quase sempre fora da estrutura defensiva do adversário, porque toda equipe defende obedecendo à principal regra do jogo: proteger o próprio gol. Como o gol está no centro, naturalmente a defesa também se concentra no centro. A Argentina quer justamente atacar esse centro. Para eles, fazer a bola circular significa esticar a segunda linha defensiva do adversário, atraí-la para fora e, assim, criar espaço por dentro para atacar. O objetivo principal não é empurrar o adversário para trás. Às vezes isso acontece, mas não é essa a intenção. Na verdade, eles preferem que o adversário permaneça um pouco mais alto. Assim, quando aceleram o jogo, encontram espaços maiores para atacar. Essa característica também deriva da estrutura da equipe. Em vez de utilizar laterais por dentro e pontas invertidos bem abertos, a Argentina atua com laterais bastante abertos e avançados, enquanto os pontas ocupam zonas interiores ou desempenham funções de falsos pontas. Pela forma como recebem a bola nas laterais, a pressão defensiva costuma ser mais intensa, o que impede que o adversário recue excessivamente. Quando a bola chega ao lado do campo, a intenção geralmente é jogar na diagonal para dentro. A equipe frequentemente atua com quatro meio-campistas: um volante clássico (camisa 5), um meia de área a área (camisa 8), um terceiro homem de meio de campo e, por fim, Messi ou um falso ponta. Embora cada um tenha sua função, todos possuem liberdade para trocar de posição, circular pelo meio-campo e ocupar diferentes espaços. Durante os momentos de circulação mais lenta da bola, procuram identificar o instante ideal para acelerar. Quando isso acontece, os jogadores precisam estar próximos uns dos outros para executar combinações rápidas. Esses movimentos são determinados pelas características individuais de cada atleta. Um exemplo é Messi recuando à frente da segunda linha adversária e procurando um passe diagonal para dentro, onde Mac Allister normalmente aparece para oferecer a opção da tabela. Gosto de definir esse princípio como:
“Circular para sobrecarregar o centro.”
Muitas vezes esse tipo de jogo é chamado de relacional, funcional ou recebe outros nomes. Na verdade, acredito que a Argentina mistura diferentes conceitos. Antes da mudança de ritmo, a equipe apresenta referências mais posicionais — não exatamente como no jogo posicional clássico, preocupado em ocupar rigorosamente determinados espaços, mas mantendo uma organização geral pelo centro do campo. Ao mesmo tempo, possui enorme capacidade para reconhecer os gatilhos que transformam imediatamente esse jogo em algo muito mais relacional. É justamente isso que torna tão difícil defendê-la. Nunca se sabe em qual região do centro do campo nem em que momento surgirá uma combinação rápida de passes. Por isso, costumo dizer que a principal referência da Argentina não é o espaço — como no jogo posicional — nem a bola — como em algumas interpretações do jogo relacional. A principal referência são os próprios companheiros. A primeira e mais importante pergunta que cada jogador responde é:
“Onde estão meus companheiros?”
E, a partir dessa resposta, posiciona-se em campo.
Scaloni, meu amigo. Aquilo que você nos ensina talvez seja a mensagem mais importante para todos que trabalham com futebol — e também para aqueles que o amam e o acompanham. A mensagem é esta: Os protagonistas são os jogadores, não os treinadores. Num mundo em que todos parecem sofrer da síndrome do protagonista, é extremamente importante lembrar que o jogo ainda pertence aos jogadores. São eles que dão vida ao futebol. Sem eles, tudo não passaria de uma partida de xadrez sem alma, com ímãs deslizando sobre um tabuleiro bidimensional. E, convenhamos, ninguém iria ao estádio para assistir a isso. Nós amamos o futebol justamente por causa de suas imperfeições.
“O lado humano, sempre. É fundamental. O lado humano ajuda quando você está cansado, com cãibras, quando um companheiro te ajuda. Logicamente, se você não tiver jogadores realmente bons, não importa o quanto todos sejam humanos ou grandes amigos dentro de campo: você não vence. Nós temos bons jogadores e um grupo extraordinário. Eu não sou treinador porque gosto do 4-3-3. Sou treinador porque gosto de reviver a experiência de fazer parte de um grupo, de compartilhar um mate com um companheiro, comer um asado, jogar truco. Se tudo em que você pensa é na partida, se você não aproveita o caminho, no final acaba esgotado. Talvez, para algumas pessoas, isso não tenha importância e apenas o que acontece dentro de campo importe. Para mim, essas coisas valem ouro, muito além de qualquer resultado. Ganhar ou perder… não. Daqui a vinte anos, quando vocês se reencontrarem e lembrarem daquele asado, essas serão as lembranças inesquecíveis. Nós acreditamos que é isso que constrói o grupo. E, se construirmos o grupo, nos tornamos ainda mais fortes.”
— Lionel Scaloni
“O futebol, assim como a arte, continua escapando a qualquer tentativa de mensuração. Se quisermos ser otimistas, devemos concordar que o grande paradoxo do futebol reside justamente em sua permanente imperfeição. Tudo o que é realmente importante nesse jogo nasce exatamente daquilo que não pode ser planejado.”
— Jorge Valdano
Eu poderia ir mais à fundo em cada uma dessas ideias, mas esse não era o objetivo deste artigo. Apenas senti a necessidade de colocar meus sentimentos no papel, porque recebi tanto dos argentinos — tanto como treinador e analista de futebol quanto como ser humano. Eles devolveram minha convicção de que não existe apenas uma única maneira de jogar futebol. Mostraram o que significa representar verdadeiramente um país dentro de campo. Provaram que nunca é tarde demais. Provaram que a habilidade mais importante que um jogador pode possuir continua sendo uma só:
saber jogar futebol.
Não o atletismo. Nem qualquer outra característica. Em vez de produzir — ou “fabricar”, como numa linha de montagem — bons atletas, eles procuram formar bons jogadores de futebol, que são coisas diferentes. Nosso cérebro acabou se acostumando a equipes em que, por causa da obsessão pela otimização, bons atletas pareciam automaticamente bons jogadores de futebol. Descobrimos que não é assim.
Por fim, eles me proporcionaram momentos e emoções que eu jamais imaginei serem possíveis através do futebol. Assim como parte da magia que carregam, essas sensações também são indescritíveis. E eu nem vou tentar descrevê-las. Prefiro simplesmente vivê-las e dizer:
OBRIGADO.
