Anotações sobre El Partido [O jogo] (Juan Cabral e Santiago Franco, 2026), visto no Festival Cinefoot (Rio de Janeiro, 2026)

Quando Diego Maradona desvia antes de Peter Shilton e abre o placar para a Argentina diante da Inglaterra no Estádio Azteca, o replay logo aponta que o toque de gol foi com a mão. O bandeirinha não toma coragem de anulá-lo, o árbitro acaba enganado pelo movimento rápido, mas não há dúvidas para quem assiste a Copa do Mundo pela televisão. Se a imagem não permite interpretação sobre o lance e a regra em si, o que nos resta ao ver tudo pela milésima vez?
Talvez o espaço oferecido ao espectador. Esse intervalo colocado entre o acontecimento e o que a gente vai fazer com isso, afinal. A forma com que, quarenta anos depois, se organiza a jogada, o que se vê, o que se sente, o que se transforma em palavra e o que chega para quem assiste. Esse caminho que não existiria sem plateia, e que só o público preencherá. O que um filme dum jogo antigo nos oferece para estar?
El Partido [O Jogo] é um documentário de Juan Cabral e Santiago Franco diante da vitória dos argentinos sobre os ingleses nas quartas de final do México-86, baseado no livro homônimo de Andrés Burgo. Diego Maradona, com um gol de mão e outro driblando o time inteiro em meio ao turbulento contexto da Guerra das Malvinas, dois momentos para sempre em coisa de cinco minutos, tem ali sua grande obra para se consolidar como o jogador mais amado que já se viu. O filme estreou no Festival de Cannes, em maio, e teve sua primeira exibição no Brasil no Cinefoot, no Rio de Janeiro, agora em agosto, três semanas depois de um novo Argentina x Inglaterra mundialista, outro 2 a 1, não no Azteca, mas em Atlanta.
Os 91 minutos do longa-metragem são um abraço nos apaixonados por futebol, e uma fita no mínimo histórica, elegante, muito bem contada para que não se liga tanto na bola. Até chegar no jogo, a produção viaja em momentos-chave daquela rivalidade, seja voltando 200 e poucos anos no tempo, para explicar como se chegou num conflito pela ocupação daqueles arquipélagos do Atlântico a uns 500km da costa da Patagônia; seja lembrando da expulsão do meio-campista Antonio Rattín, que num Argentina x Inglaterra em Wembley, vinte anos antes, pela Copa de 1966, debateu com o árbitro alemão até ser convidado a se retirar — reclamou de impossibilidades de tradução e fez com a Fifa inventasse os cartões amarelo e vermelho para o torneio seguinte.

Mas o ponto alto do filme, e aí voltamos ao espaço que é deixado para nós, espectadores, é o encontro dos personagens do jogo para assistí-lo e contá-lo. É daí que vem o grande caldo narrador, um documentário cujo texto é um eco carismático e interessado em revisitar aquela história, não em platitudes boleiras que se acumulam na nossa timeline (ex-jogadores reproduzindo caricaturas deles próprios sob as mesmas resenhas), mas provocados em elaborar a reflexão naquele dispositivo de cinema tantas vezes esgotado na televisão, e que aqui se sustenta pelo tamanho do épico — o jogo mais emblemático da história das Copas? — e pelo fascínio do elenco.
Do lado inglês, cabem a generosidade de Gary Lineker e o sorriso de John Barnes, ludibriados por um gênio porém felizes em compartilhar um campo com Diego, ao mesmo tempo da amargura justificável do goleiro Shilton. Do lado argentino, a turma de Burruchaga, Ruggeri, Giusti e o herói de um bloqueio esquecido Olarticoechea, mas especialmente Jorge Valdano: “Tem que ter em conta que, para nós, a esperteza é um valor”.

No ensaio O Narrador, de 1936, Walter Benjamin percorre o dilema de se contar história no mundo da informação e da consolidação do romance moderno, lembrando que a narrativa oral, artesanal, não estava interessada em transmitir o “puro em si”, uma informação, um relatório. Ela “mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso”. Vitor Ribeiro-Santos (Pronunciar o Chão: notas sobre a existência do futebol, 2025) vai dizer que essa forma de narrar dizia respeito “à cristalização e reformulação de uma espécie de saber social difuso, esparramado ao longo do tempo e do espaço por meio da vida social”.
Ouvir os jogadores neste filme sobre um jogo de quatro décadas atrás é lembrar do narrador esportivo, esse do antes de tudo, protagonista de nossa paixão, a ponto de termos normalizado o gesto de ir ao estádio com o rádio de pilha no ouvido, ou seja: não basta estar presente no jogo, queremos estar onde ele está sendo narrado. A escolha de palavras e o decoro, o senso de importância do encontro, fazem de El Partido um trabalho muito acima da média no que diz respeito ao documentário de memória de futebol. Mérito da direção, claro, mas sobretudo da abertura de Liniker e Valdano, os narradores. (Os lances, para ver, estão no Youtube, oras.)
E muito de Diego Armando Maradona. O camisa 10 é o mito por si só, e a forma com que mexe com os envolvidos é de um tamanho de emoção raro. Colegas e adversários brilham os olhos para o que já viram e reviram trocentas vezes, como se o melhor jogador em campo fosse uma namorada do passado, uma foto de família, uma lembrança com o filho que cresceu, algo, sem exagero, formador de quem são. Alguém disse que a diferença para a ficção é a irreprodutibilidade, e expor o sensível desses sessentões/setentões na tela grande é documentário em estado puro, impossível de se repetir.

Nessa complexidade do gênio imperfeito, todos os pequenos cacos vão dando sentido para seu tamanho no imaginário do esporte. O irmão que lhe indicou a melhor forma de driblar o goleiro, a suspeita de que ensaiou para encobrir um goleiro com um toque de mão ou até as origens e desfechos tortos da expressão La mano de Dios, da camisa azul improvisada, da foto que melhor captou o desvio irregular, de todas as manias e focos do pitoresco técnico Carlos Bilardo. Tudo em Diego é paixão e excesso, o que extrapola a racionalidade mais direta — e está lá o goleiro ferido, duro, como exceção necessária para a humanidade do protagonista.
O cineasta Oswaldo Caldeira, em texto sobre Garrincha, Alegria do Povo (Joaquim Pedro de Andrade, 1963), escreve que no filme “cultua-se igualmente o que se renova (o improviso) e o que se repete” (O esporte vai ao cinema, 2005). Aí está exatamente a sensação em seguir olhando aquele baixinho canhoto, dois gols com a esquerda, um com a mão e outro com o pé, um de costas e o outro caindo, para ver e contar numa sessão de cinema dez Copas do Mundo depois.
Na noite daquele 22 de junho de 1986, no telejornal da TV Globo que repassou as jogadas do dia, Fernando Vanucci narrou que o controverso gol de Maradona foi “do jeito que a torcida gosta”. Peter Shilton jamais aceitou as diversas ofertas financeiras para se filmar um encontro com Diego, que morreu em 2020. Nós saímos do cinema para seguir contando a história dum gol de mão, o toque improvisado que se renova e se repete.

