Por trás das táticas

O que é que significa dizer que um treinador implementa seu modelo de jogo? Ou então, que um jogador operacionaliza um princípio tático?

Eu me fiz essas perguntas muitas vezes durante minha pesquisa de iniciação cientifica. A iniciação cientifica é uma modalidade de pesquisa para estudantes de graduação, uma espécie de categoria de base dos laboratórios de pesquisa. Esses conceitos tem se popularizado na discussão sobre futebol, de modo que eu rapidamente percebi que se quisesse construir algum conhecimento científico relevante teria que levar meus questionamentos a outro nível de profundidade.

Vamos pegar o conceito de tática como exemplo: a sua definição mais difundida diz que tática é a gestão do espaço de jogo. Gestão? O que diabos essa palavra significa? Para mim, gestão remete a um processo calculado de administração. Mas é verdade que dentro da palavra gestão também pode existir algum tipo de relação mais instável, como defendem alguns autores tratando da ideia de gestão do caos.

Esse outro nível de profundidade é o nível da investigação epistemológica. Por definição, a epistemologia é o campo da filosofia que estuda o conhecimento científico, ou seja, como é possível construir e ter certeza de um conhecimento sólido e verdadeiro. Eu prefiro entender epistemologia como as “coisas” que precisam existir para que um pensamento funcione. Exemplo: quando alguém lê o horoscopo e se alegra porque o seu signo tem reservada uma semana de sorte, a pessoa só se alegra porque no fundo acredita que a posição dos astros no dia do seu nascimento pode impactar na sua vida.

            O verdadeiro significado de gestão do espaço, e, portanto, do conceito de tática depende do terreno epistemológico que pisamos. Se venho de um lugar mais estruturalista, mais rígido, tendo a compreender os processos táticos como aplicações de regras de um processo calculado de gestão do espaço. Se venho de outra lugar, mais complexo, tendo a compreender os processos táticos como a tentativa de organização de um processo caótico que é a configuração de um jogo de futebol.

            Eu fui investigar em qual terreno epistemológico esses conceitos populares no futebol foram escritos, e em quais terrenos epistemológicos eram aplicados. Para isso, entrevistei o autor do Glossário do Futebol Brasileiro, uma publicação da CBF Academy com os principais conceitos relacionados ao futebol; e três treinadores brasileiros (uma mulher e dois homens) de nível profissional.

            O que eu descobri pode ser divido em três tópicos:

TÁTICA E ESTRATÉGIA

            Esse é o tópico dos conceitos “puros.” Tática e estratégia são dimensões da ação no futebol. Quando vemos uma ação em jogo: um ponta correndo em diagonal em direção a área, por exemplo, essa ação tem uma dimensão física (sua aceleração e velocidade, seus processos fisiológicos…), tem uma dimensão psicológica (faz essa corrida com alguma motivação), tem uma dimensão técnica (a amplitude da sua passada, se faz uma trajetória reta ou curva, talvez para fugir de um impedimento…) e naturalmente tem uma dimensão tática e estratégica.

            Por definição, a dimensão tática é a da gestão do espaço de jogo enquanto a dimensão estratégica é a do planejamento para a situação. Tática e estratégia se implicam mutuamente, formando aquilo que alguns autores chamam de essencialidade estratégico tática do jogo. “Só é possível ir ao plano de a partir de sua identidade, da mesma forma que o plano de jogo interfere na forma tática,” avisa o autor do Glossário.

            No caso da corrida em diagonal que mencionamos acima, ela tem uma dimensão tática na medida em que modifica o espaço de jogo, aproxima o jogador do gol e possivelmente o afasta de um marcador direto. Também tem uma dimensão estratégica, pois esses efeitos de modificação no espaço são esperados e certamente estão inseridos dentro de uma lógica da equipe: o portador da bola pode buscar o passe ao jogador que realiza esse movimento, ou então um outro companheiro pode fazer um movimento complementar, deixando a defesa em dúvida de qual situação defender.

            O questionamento epistemológico que coloquei é sobre a rigidez desses conceitos. Já discutimos as diferentes interpretações da ideia de gestão do espaço. E o plano estratégico? Ele ordena com mão de ferro? Ou será que ele sugere apenas?  

            O autor do Glossário esclareceu sobre a relação entre tática e estratégia, e como a estratégia pode variar a partir de diferentes situações táticas. A fala dos treinadores também convergiu acerca da importância da circunstancialidade para a estratégia. Talvez a estratégia ordene para as situações bem conhecidas, mas para as situações mais novas, tudo que ela pode fazer é sugerir. Sendo o jogo um eterno produtor de novidades, a estratégia mais sugere que ordena.

            Quando perguntados sobre a dimensão tática, todos os entrevistados destacaram a tomada de decisão. Ou seja, os processos táticos não podem ser administrações burocráticas, mas contemplam necessariamente uma decisão entre as possibilidades do jogo. Mas é interessante pensar que sendo a tática relacionada à tomada de decisão, ela compreende não só a decisão do que fazer, mas também a decisão de como decidir o que fazer: se houver uma predeterminação, irei segui-la?

            Aqui chegamos a mais um nível de profundidade. Os conceitos de tática e estratégia estão bem definidos quanto ao que fazem, quanto ao seu terreno epistemológico, que não fechado, mas aberto à decisão do jogador. Fica o questionamento de para que servem os conceitos de tática e estratégia? A gestão do espaço e o planejamento correspondente são ferramentas aplicadas pelos jogadores para desenvolvimento do trabalho do treinador? Ou são possibilidade oferecidas para a expressão da autonomia?

            Nesse momento, estamos ultrapassando a questão conceitual operacional (o que o conceito faz), e tocando uma questão ideológica (para que o conceito serve). Não existe barreira concreta que separa um tema do outro. Na verdade, só percebemos a dimensão ideológica de cada treinador porque ela se “infiltra” na definição que cada um faz do conceito.

            A treinadora A, por exemplo, justifica as dimensões tática e estratégica como um campo de criação e operacionalização de conceitos. Enquanto, os treinadores B e C convergem na ideia de manifestação de soluções para os problemas do jogo. É um jogo de palavras sútil, mas sugestivo de como esses treinadores trabalham.

CULTURA, IDEIA E MODELO DE JOGO

            Esse é o tópico que ajuda a explicar a diversidade de formas que o futebol se apresenta. Por que com as mesmas regras do jogo, no mesmo clube, às vezes sob comando do mesmo treinador, vemos comportamentos tão diferentes?

            O modelo de jogo é entendido como o conjunto de referências que conecta jogo e treino e oferece significado a forma de jogar. Ele está sempre no “caldo cultural” e, portanto, operacionaliza as ideias de jogo de um dado contexto. No Glossário, há explicação clara que o modelo de jogo não impõe comportamentos, mas que há um rico processo de apropriação e ressignificação a partir dos elementos envolvidos: comissão, jogadores, objetivos esportivos, contextos, recursos disponíveis…

            Não cabe questionar o conceito de modelo de jogo quanto à rigidez. Está claro que o modelo se adapta, se ressignifica. O questionamento epistemológico que podemos colocar é sobre como essas referências impactam o jogo praticado e a avaliação sobre o mesmo. O modelo é uma representação a ser reproduzida – mesmo que com alguma adaptação? Ou o modelo é resultado das interações entre jogadores, treinador, ideias de jogo e adversários?

            Esse questionamento é importante porque coloca no centro a forma como o modelo de jogo lida com as emergências do jogo. Emergência no sentido daquilo que surge da interação de forma não programável, pois não está no nível das partes, existindo somente no nível da interação. Podemos imaginar um embate entre duas equipes ofensivas, dominantes e de nível similar: se ninguém mudar a postura, esse será um jogo de bastante e boas transições. As transições não estão em nenhuma das partes, não são centrais a nenhum modelo de jogo, mas na interação entre essas partes emergem com destaque.

            A investigação mostrou que predomina no conceito de modelo de jogo, uma raiz epistemológica construtivista. Em termos simples, quer dizer que o modelo de jogo não é uma estrutura rígida que se impõe, mas que é uma ideia que direciona a ação a todo instante. O autor do Glossário enfatiza: “o modelo de jogo é utópico.” A treinadora A vai na mesma direção, dizendo que o modelo é um direcionamento do que se deseja em cada fase do jogo.

            O treinador B, por sua vez, vai chocar: afirma não trabalhar com um modelo de jogo. Para ele, modelo de jogo é um conjunto de comportamentos pretendidos. Ele teme que essa construção teórica externa ao jogo faça com que o jogador busque cumprir mais a lógica do modelo, do que a lógica do jogo. A questão não é que o modelo não possa trazer benefícios, mas que, sendo ele uma definição de determinadas referências, ele possa ter dificuldade para resolver problemas do jogo que tem uma natureza imprevisível, inesperada, circunstancial. Em resposta a sua recusa da ideia de modelo, o Treinador B afirma trabalhar com o conceito de vantagem, que discutiremos melhor a frente.

            O treinador C também menciona o conceito de vantagem, mas não rompe com o conceito de modelo. No entanto, é interessante perceber que ele conceitua modelo de jogo de uma maneira diferente. Para ele, modelo não é aquilo que se pretende, mas aquilo “que efetivamente a equipe faz nos momentos do jogo.” Ou seja, não se trata somente do planejado, mas do efetivamente realizado.

            As provocações dos treinadores B e C ajudam a engrossar uma leitura crítica do conceito de modelo de jogo. Já vimos que críticas quanto a rigidez não se sustenta, uma vez que o próprio conceito pressupõe adaptações por parte dos jogadores. Entretanto, as colocações dos treinadores nos ajudam a pensar em como essas variações inescapáveis são encaradas.

            O conceito de modelo de jogo tem dificuldade de lidar com as emergências, e para isso se associa fortemente a uma valorização das ideias de jogo. Se entende que o jogo e seu processo organizacional produz inúmeras variações, mas o seu surgimento é creditado a um sistema de ideias anterior. Ou seja, apesar de compreender que as variações impostas ao planejado são inevitáveis, essas variações são lamentadas. O que surge é uma dialética do modelo de jogo: o modelo de jogo é uma tese, e os jogadores buscam defende-la; o jogo, entretanto não aceita passivamente e produz uma antítese; assim, é preciso fazer uma síntese, readequando as ideias de jogo. No instante seguinte, a ideia de jogo readequada configura um novo modelo e uma nova tese que entre novamente na dinâmica do jogo. E assim o ciclo se repete. É por isso, que o modelo de jogo é utópico.

            Os treinadores nos provocam a perceber as variações inevitáveis não como situações a serem lamentadas, mas como desejáveis, pois são a atualização possível das ideias de jogo naquela situação concreta. Concebendo, inclusive, que algumas atualizações emergentes podem ser muito ricas, mais até do que as soluções planejáveis.

            Sai de cena a dialética, entra em cena a dialógica. Ou seja, a conversa entre a equipe e o jogo não é mais um debate, mas uma conversa. Ecoando o poeta Vinicius de Moraes: “a vida (o jogo) tem sempre razão.”

PRINCÍPIOS TÁTICOS

            Esse tópico trata do conceito de princípio tático. O princípio tático parece ser uma espécie de unidade de toda essa construção tática, conectado ao modelo de jogo. Se o modelo é o quadro completo do jogo da equipe, os princípios são como pecinhas de quebra cabeça.

            Um princípio tático é uma elaboração teórica sobre a lógica do jogo. Ele carrega a promessa de orientar os jogadores nas suas tomadas de decisão.

O autor do Glossário, esclarece que é importante não confundir um princípio com sua manifestação. O princípio, enquanto ideia, está na esfera da cognição. Mas quando vai para a prática pode tomar diferentes formas. De maneira abstrata, o princípio “soluciona” o problema do jogo, mas o jogador ainda tem muito trabalho a fazer. Por exemplo, podemos pensar que o princípio de progressão é o mais recomendado a determina situação tática. Entretanto, existem inúmeras formas de progredir: passes curtos, longos, conduções, tabelas e dribles. Às vezes, paradoxalmente, a melhor forma de progredir é ir para trás.

            Essa noção de que o princípio não é uma ideia pronta, mas o ponto de partida de diferentes manifestações coloca no centro um debate sobre a diferença entre referência e comportamento. Se o modelo de jogo for um conjunto de comportamentos, ele resulta sempre nas mesmas manifestações. Se for um conjunto de referências, pode se manifestar de diferentes formas.

            É interessante retomar a crítica do modelo de jogo por parte do treinador B. Para criticar o conceito ele o reduz a um “conjunto de comportamentos,” enquanto o autor do Glossário insiste no uso do termo referências. De qualquer forma, o pensamento do treinador B segue frutífero: quando ele diz trabalhar com a noção de vantagem, ele dialoga com a ideia de referência.

Eu preciso levar a bola à zona de finalização, então eu preciso abrir determinada linha do adversário em um setor do campo. Mas lá em outro setor, já não vale mais a pena abrir. Então eu não vou precisar manter amplitude. Por isso não é um princípio, não é uma referência do meu jogo a amplitude. Não é uma referência porque não me gera vantagem sempre. Eu não quero buscar a referência, eu quero gerar vantagem (Treinador B).

            O treinador não oferece uma conceituação clara de vantagem, apenas a relaciona ao próprio ato de jogar – “jogo é busca pela vantagem permanente” – mas a sua fala permite algumas conclusões. Ele argumenta que os princípios táticos (assim como o modelo de jogo) podem estar longe da lógica do jogo. Aqui, seria possível argumentar que a própria definição de princípio tático – elaboração teórica sobre a lógica do jogo – é íntima à lógica do jogo. Entretanto, o treinador B não fala de um afastamento por distância, mas por natureza. Se o princípio é uma ideia, teórico, abstrato por natureza; a vantagem está colocada nas situações concretas de jogo.

            Vimos que por ser uma ideia, o princípio pode ter diferentes manifestações, e assim afasta qualquer crítica de rigidez estruturalista. Entretanto, justamento por ser uma ideia pode cair no mesmo jogo dialético do modelo de jogo, de querer insistir em trazer ao jogo ideias prévias, que não necessariamente se aplicam.

            O treinador C oferece caminhos para pensarmos princípio tático em uma lógica mais complexa. Ele também trabalha com a noção de vantagem, mas não faz oposições radicais como o treinador B. Ele relaciona os dois conceitos, e define princípio e vantagem em interação:

Entendo os princípios de jogo como ocupações de espaço da equipe que tem como objetivo gerar vantagens ofensivas ou defensivas no sentido de aproximar a minha equipe do cumprimento da lógica do jogo (Treinador C).

            Ou seja, para o treinador C, os princípios não são elaborações teóricas, mas ocupações de espaço, possibilidades de ação. E a vantagem complementa, orientando sobre qual opção é mais interessante. Essa nova perspectiva chacoalha um pouco o debate.

            Na prática, percebemos que a discussão que estávamos fazendo estava centrada no princípio, na ideia de jogo que ele representa. A ideia abstrata precisa se materializar na concretude da ação e pode fazer isso com variações, porque a dinâmica do jogo impõe variações.

            A visão do treinador C, por outro lado, é centrada na tomada de decisã. Para o jogador, o princípio não é uma ideia, mas aparece como uma possibilidade concreta de intervenção na jogada. Ou seja, o jogador, respondendo ao real, ao concreto do jogo, não interage diretamente com as ideias, mas com as opções possíveis. E seleciona uma dessas opções a partir da noção de ela lhe dá alguma vantagem no cumprimento da lógica do jogo.

            Nesse ponto, podemos pensar em ideias de jogo no plural. Quando focamos em uma ideia, pensamos nas manifestações de um princípio. Quando focamos no jogador, vemos que ele pode escolher entre muitos diferentes princípios. Há uma multiplicação das possibilidades.

            O treinador B, opõe fortemente princípio e vantagem, por causa dessa distinção entre uma visão centrada no princípio, e uma visão centrada na decisão do jogador. Mas porque essa oposição não continua no treinador C? É que ele parece ter uma noção de vantagem mais clara:

Como o jogo é um confronto de sistemas, se você bater um frame, se você pausar o jogo em um instante, haverá nessa imagem elementos que podem ou não indicar caminhos em que uma jogada pode aumentar sua chance de êxito.  Em uma jogada podem haver posicionamentos do adversário que inviabilizam a realização de um ou outro princípio de jogo, mas que viabilizam a realização de outro. Eu entendo vantagem como essa busca pelos melhores caminhos para aumentar a chance de êxito em cada jogada (Treinador C).

            O treinador C é bastante claro sobre como a vantagem aparece e ajudar o jogador a tomar decisão. Apesar de não fazer menção, essa definição do treinador C dialoga com a definição de vantagem da teoria dos espaços de fase, de Paco Seirul-Lo. “Vantagens são situações nas quais um jogador se encontra, em determinado momento, em uma condição espaço-temporal benéfica para aproximar sua equipe de um espaço de fase melhor” (Peraita, 2021, p.68). Um espaço de fase é equivalente ao frame que o treinador menciona, um instante do jogo. Perceba como o treinador C consegue articular princípio e vantagem, abstração e concretude.

            O treinador B, por sua vez, oferece uma definição de vantagem muito menos clara. Isso porque no seu discurso a noção de vantagem é muito mais importante pelo seu essencialismo (representa para ele a essência do jogo) do que pela sua operacionalidade (o que faz, como destaca o treinador C).

            O que significa afinal esse conceito de vantagem? Mesmo a definição da literatura dos espaços de fase tem fragilidades: primeiro, não está claro como um espaço de fase pode ser melhor que outro, não há aprofundamento a esse respeito. O único desenvolvimento relevante a partir da definição é a distinção entre cinco tipos de vantagens:  numérica, posicional, qualitativa, dinâmica/cinética e socioafetiva.  A segunda questão está relacionada justamente com a ideia de espaço de fase. Essa perspectiva de ver o jogo frame a frame, suspendendo a variável tempo, traz elementos muito interessantes a   nível   de   análise, de   identificar   as   possibilidades, mas   precisa   ser problematizada quando estamos pensando o conceito de vantagem auxiliando a tomada de decisão do jogador. Um modelo de tomada de decisão pautado nessa concepção de espaço de fases parece bastante limitante.

            Mais que isso, que questionamento epistemológicos podemos colocar ao conceito de vantagem? Será que buscar vantagem é mesmo a natureza do jogo? Será que para cada situação concreta a uma solução universalmente mais vantajosa? Não estaríamos assim substituindo o fechamento nas ideias de jogo pelo fechamento no ambiente?

            Como podemos realmente entender o que é vantajoso ou não? Ao que parece, a vantagem é um conceito emergente, que só aparece em situações concretas a partir das interações dos elementos. Mas como é que lemos essas vantagens? Se pensarmos somente pela questão “espaço-temporal” que a definição de Peraita coloca, não estamos ignorando outros elementos importantes como as condições mentais e físicas dos atletas, suas potencialidades, seus desejos, suas relações?

            Esses são questionamento interessantes, que só podem ser respondidos a partir de uma definição do conceito de vantagem mais sólido.

CONCLUSÃO

            A investigação mostra que os discursos sobre tática no futebol são plurais e diversos. Cada conceito é interpretado de maneira particular pelos treinadores, influenciados por seu contexto e história. Entretanto, é possível ver um fio comum acerca da valorização das ideias de jogo no trabalho dos treinadores. De modo geral, todos os conceitos estão direcionados a operacionalizar o que o treinador deseja, com mais ou menos autonomia aos jogadores. Ainda há dificuldade de lidar com aquilo que emerge do jogo como algo positivo e aproveitável, ao invés de uma variação que precisa ser domesticada.

            Eu também sou treinador, também tenho minhas preferências, minhas ideias de jogo. Tenho um modelo e destaco alguns princípios, mas tento fazer isso sem pesar a mão e como ferramenta que ajuda a devolver o jogo ao jogador. Esse trabalho não é um argumento para abandonar esses conceitos tão caros ao trabalho dos treinadores, mas uma reflexão para pensar os seus impactos.

            Gosto do que diz Edgar Morin, o filosofo da complexidade, nossa tarefa é que “dominemos não a natureza, mas o domínio.” Que tenhamos autoconsciência e autocontrole para interferir no jogo sem roubá-lo do jogador.

Este texto é uma versão de divulgação do artigo científico de Pedro Galante, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que contrasta epistemologias aplicadas aos discursos sobre tática no futebol, presente em https://www.motricidades.org/journal/index.php/journal/article/view/2594-6463-2025-v9-n1-p18-33.

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