Futebol homogêneo em Psicopata Americano

Por: Davi Rigamonte e Matheus Fiore

Diversos yuppies se reúnem em um restaurante para falar sobre gastos, estilo de vida e qualquer outra bobagem. Todos com o mesmo penteado, os mesmos óculos, os ternos sob medida quase indistinguíveis uns dos outros. Eis que um deles vira para o lado e avisa: “olha o Paul Allen ali”. Outro sujeito do grupo retruca: “não, ele tá naquela outra mesa ali”. Surge então o protagonista de Christian Bale, Patrick Bateman, que diz: “na verdade, ele está naquela mesa ali no fundo”.

Nenhum dos três sujeitos apontados pelo grupo era Paul Allen. A graça da sátira de Psicopata Americano é acompanhar o lifestyle desses imbecis e mostrar o quanto falta de individualidade a cada um. Todos têm os mesmos anseios, bebem as mesmas bebidas, usam os mesmos óculos, jantam nos mesmos restaurantes com as mesmas namoradas, sonham os mesmos sonhos e perseguem os mesmos objetivos.

Alguns momentos depois, um breve momento de rixa entre os personagens surge: quem tem o melhor cartão de visitas. Todos praticamente idênticos, com os respectivos nomes acompanhados por “vice-presidente”. Mas eles juram notar uma diferença tão grande que as mãos tremem de raiva e inveja ao constatar não ter o melhor cartão.

São sujeitos tão indissociáveis que qualquer um poderia desaparecer que ninguém jamais perceberia. Se Bateman desaparece, por meses o confundirão com Bryce, que pode estar por aí cometendo atrocidades e sendo identificado como McDermott. Apesar da total ausência de personalidade e individualidade, esses homens juram ser muito especiais, veem nos privilégios de classe uma separação moral, cultural e quase espiritual para com os demais. 

Dada a natureza do jogo, é normal que exista algum nível de homogeneidade. Natural porque todas as possibilidades de manifestações do futebol estão restritas às regras que, como jogo, devem se adequar. As regras são para todos, o objetivo é comum, e cada time possui mais ou menos as mesmas formações. Isto posto, não deixa de ser verdade também que a homogeneidade do jogo aumentou na medida em que não mais as regras do jogo ditam as restrições, mas uma metodologia específica.

Todas as possibilidades de jogo residem não mais nas regras e na natureza do jogo (conjunto A), mas de certa metodologia (conjunto B). As formações que o digam: triunfo do 3-2-5. É sempre a mesma lógica. Pode-se jogar com três zagueiros e dois alas; ou deixar um dos laterais na saída com três e o outro atacando como ponta; você pode descer um dos volantes, ou mesmo alternar os jogadores que se usa para cumprir as funções: o ponto é ter três na saída, dois na base, dois entrelinhas, dois na amplitude, um nove.

Só a partir daqui veremos a diferença, como no caso da cena dos cartões parecidos: um time atacará usando espaço de força, outro time usando o espaço de habilidade; um time fará com que o lateral jogue por dentro pra ter o ponta numa situação de 1vs1, outro, uma vez que o ponta atrai a marcação, fará com que o interior rompa no espaço entre zagueiro e lateral para cruzar para trás; ainda um vai tentar atrair a pressão do bloco adversário para atacar o espaço, já outro atacará com todos os jogadores ao redor da área adversária.

Isso significa que agora distinguimos um time do outro através de comportamentos cada vez mais micros, que, aliás, somente um analista poderia perceber. E todos dentro da mesma metodologia. 

A isso soma-se outro fator, talvez o mais impactante dos próximos anos do futebol: se certa metodologia torna-se paradigmática, por consequência a homogeneidade entre jogadores também aumenta. Porque não se deseja mais o bom jogador, com todas as suas possibilidades, mas o bom jogador que caiba no modelo de jogo. Aqui a lógica se inverteu: primeiro se via o jogador e o que ele era capaz de fazer para então o modelar; agora já se vê o modelo, para então escolher o jogador correto. 

Voltando ao gráfico, a qualidade do jogador dizia respeito ao que ele podia fazer em relação ao conjunto maior das regras do jogo. Agora diz respeito ao que ele pode fazer dentro da metodologia: mapeamento, disciplina corporal, domínio orientado, giro sobre o próprio eixo, vencer pressão, etc. A homogeneização, portanto, se refere não apenas à formação ou organização ofensiva de uma equipe, mas atinge agora as características dos jogadores, limitando a um conjunto menor o que se pode ter como bom e o que vamos assistir. 

Como em Psicopata Americano, as possibilidades do futebol morrem no momento em que se assimila a coisa-ideia-método em detrimento do todo possível do real que cada jogador e o próprio jogo oferecem. Sabemos que é impossível se desvencilhar de todas as nossas influências e ideias. Desejar tal coisa seria loucura, porque a alienação total é doença. Porém, mesmo que eu traga minhas ideias, minha cultura e preconceitos para lidar com o jogo, espera-se abertura e diálogo, não o fechamento. Como no filme, as maiores aberrações serão cometidas e a realidade será confundida com loucura só porque nos fechamos da inteireza do jogo.

Tomemos os grandes times europeus. É possível que alguém se levante e liste as enormes diferenças que há entre Arsenal e City – sobretudo um analista fará isso. Mas temo que, no fundo, a diferença esteja só na grossura das linhas e das letras do mesmo cartão; e que afinal não importa se é Paul Allen, Bryce, McDermott, Arteta ou Kompany. Não faz diferença.

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