De Rossellini a Cannavaro: o país que esqueceu sua língua

“Temos vergonha de quem somos há vinte anos. Durante todo esse tempo, senti que tentávamos jogar como a Espanha e, com isso, desistimos da nossa história. O talento desaparece por causa disso. Jogadores como Ferrara ou Cannavaro teriam vergonha de entrar em campo hoje. Chiellini nem jogaria hoje porque não tem um passe longo”.

A afirmação é de Gianluigi Buffon, lendário goleiro italiano, campeão do mundo em 2006 e ídolo do maior clube do país, a Juventus. A fala não chega sem contexto. Após o título de vinte anos atrás, a Azzurra amargou ciclos ruins. Em 2010, foi lanterna do grupo com Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia. Em 2014, foi eliminada em grupo com Costa Rica, Uruguai e Inglaterra. Em 2018, 2022 e 2026, sequer se classificou para a principal competição do futebol.

Como quase tudo no mundo de hoje, entender o fracasso do futebol italiano passa por números, mas também por algo um pouco mais sensível e menos mensurável. A Série A é o campeonato europeu com menos jovens em campo, e o número piora se contabilizarmos apenas jogadores italianos. É uma questão, inclusive, que ultrapassa o futebol, com a Itália sendo hoje um dos países mais envelhecidos do mundo e convivendo com uma das menores taxas de natalidade do planeta. 

É comum ouvir de agentes e profissionais do futebol críticas à dificuldade que jovens italianos encontram para receber oportunidades, pois mesmo instituições centenárias como Roma ou Milan não possuem qualquer projeto para desenvolvimento e maturação de suas joias. Mas, por reconhecer meu desconhecimento sobre a profundidade do problema e dos processos implementados, proponho um olhar externo para a crise no futebol italiano, que pode muito bem servir para reflexões aqui no Brasil.

Assim como no futebol, no cinema a Itália também já foi um dos principais centros do planeta. Nomes como Roberto Rossellini, Valerio Zurlini, Luchino Visconti e Vittorio De Seta foram, outrora, algumas das principais referências do cinema mundial. Hoje, os principais nomes são todos da velha guarda, como Marco Bellocchio (86 anos), Nanni Moretti (72) e Paolo Sorrentino (56). Entre os jovens, há poucos nomes, que surgem mais como exceção que comprova a regra, como Michelangelo Frammartino.

Esse processo de deterioração do cinema italiano não possui uma explicação única, mas passa por diversos fatores. Para começar, a grandiosidade do cinema italiano passava também pela força de sua indústria interna, com seus gialli, peplum e spaghetti westerns. O desmonte daquela indústria que trouxe nomes como Mario Bava e Vittorio Cottafavi levou à homogeneização, e aos poucos o cinema do país da bota parecia resistir sobre pilares cada dia mais envelhecidos, e acabou morrendo junto aos cineastas da era de ouro.

A televisão foi um fator preponderante nesse processo. Na década de 1980, a TV italiana explode, e o mercado muda completamente. Diretores, roteiristas e estrelas migram para a televisão, e levam consigo o público. O cinema, então, fica livre para a ocupação americana. Desde o fim dos anos 70, com a ascensão dos blockbusters de Steven Spielberg e George Lucas, o cinema hollywoodiano vem expandindo seus domínios, e o enfraquecimento de outras indústrias nada mais foi senão uma oportunidade para o fortalecimento da hegemonia americana para além de seu território. 

Os Anos de Chumbo, iniciados na década de 70, também tiveram um grande peso, com o cenário político efervescente impactando na cultura italiana e gerando certo esgotamento ideológico (e o cinema italiano, vale lembrar, sempre foi extremamente político). Se nas décadas de 50 e 60, a Itália competia com os Estados Unidos, esse desmonte da indústria local e a invasão americana viraram o cenário de cabeça para baixo.

A influência da televisão, vale notar, não pode ser minimizada. Independente de nossos gostos, há de se notar que a televisão oferece uma experiência radicalmente diferente do cinema, e forma um novo gosto estético, com formatos mais rígidos e limitadores. O que a Itália perdeu no cinema, portanto, não foi apenas sua indústria e o celeiro de novas gerações de autores, mas também sua identidade.

Em Histoire(s) du Cinéma, Jean-Luc Godard afirma, ao defender Roma, Cidade Aberta, de Rossellini, como o mais importante filme italiano: “(…) Com ‘Roma, Cidade Aberta’, a Itália reconquistou o direito de uma nação se olhar de frente. E então veio a espantosa colheita do grande cinema italiano. Há, no entanto, uma coisa estranha. Como pôde o cinema italiano tornar-se tão grande uma vez que todos, de Rossellini a Visconti, de Antonioni a Fellini, não gravavam o som com as imagens? Uma única resposta: a linguagem de Ovídio e de Virgílio, de Dante e de Leopardi, passara para as imagens”.

Para o francês, a força do cinema italiano não reside apenas nas imagens, mas em sua potência para levar consigo os traços de uma cultura, transformando o mito em linguagem. Fazer da tragédia uma fantasia. Por mais que mercadologicamente, a Itália competisse com os EUA, artisticamente, a ideia era bem diferente. A Itália se destacava por fazer o seu, por encontrar seu próprio caminho, distante das tendências americanas. Em outras palavras: pôr em imagens a sua forma de pensar e sentir o mundo, e não apenas reproduzir o que fizera outros colherem seus frutos. O cinema das ruas, dos rostos ordinários, das histórias mundanas, da improvisação e da urgência, deu ao italiano a possibilidade de se reconhecer em tela. 

Voltando ao futebol, qual o legado que o futebol italiano construiu nos últimos anos? Seus melhores jogadores não são sombra dos que vimos no passado e sequer figuram entre os melhores de suas posições, como Sandro Tonali e Riccardo Calafiori, seus técnicos parecem ter desaparecido, com Antonio Conte sendo um dos únicos a fazer sucesso nas principais ligas. Roberto De Zerbi é, claro, o mais badalado, mas construindo times que jogam de maneira muito pouco familiarizada ao futebol italiano, e bebem muito mais de fontes como a escola espanhola ou a holandesa. 

Carlo Ancelotti, um dos mais vencedores da história, não chega a ser exceção que comprova a regra. Na verdade, ele é mais um elemento que aproxima futebol e cinema na Itália. Se nomes como Rossellini e Argento foram o que manteve o cinema italiano tendo relevância mesmo em suas fases avançadas (com Argento em atividade até hoje, vale lembrar), Ancelotti parece ser também uma figura anacrônica, mantendo viva uma forma de expressar e pensar o futebol que não mais prospera – sem que isso faça dele alguém necessariamente defasado.

E talvez seja justamente aí que futebol e cinema se encontrem. O problema nunca foi deixar de vencer ou deixar de produzir obras-primas. Nenhuma tradição permanece eternamente no topo. O problema começa quando uma cultura deixa de acreditar que sua própria forma de fazer as coisas ainda pode dizer algo ao mundo. Quando o cinema italiano deixa de filmar a Itália para perseguir modelos estrangeiros, ou quando seu futebol passa a enxergar seu passado como um obstáculo em vez de uma herança, perde-se mais do que títulos ou grandes filmes: perde-se uma linguagem.

Isso não significa transformar tradição em museu. Rossellini jamais filmou como os diretores do período fascista, assim como Cannavaro jamais jogou como Giacinto Facchetti. A tradição italiana nunca foi repetir o passado, mas reinventá-lo. Modernizar-se, adaptar-se ao mundo de hoje — pois a realidade é inexorável — sem que com isso se abandonem suas raízes, sua própria cultura, sua mitologia. Enfim, sem abandonar o que foi o cinema e o futebol italiano que conquistaram o mundo. Ou isso, ou talvez o destino da Azzurra seja o mesmo do príncipe Fabrizio, em Il Gattopardo: um desaparecimento silencioso, como uma constelação de quatro estrelas que lentamente se apaga nos céus.

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