
“Quando K… telefona para o castelo, são vozes confusas e misturadas, risos vagos ou apelos longínquos o que ele distingue. Isso basta para alimentar sua esperança, como esses vagos sinais que aparecem nos céus do verão, ou essas promessas da tarde que nos trazem uma razão de viver. Encontra-se aqui o segredo da melancolia peculiar a Kafka.”
A Esperança e o Absurdo na Obra de Franz Kafka, por Albert Camus
Entro em crise existencial toda vez que assisto à seleção francesa. O sofá vira uma guilhotina, onde espero Mbappé chutar e cortar minha cabeça. Um vazio vai tomando conta de mim. Dembelé pedala, não sei com que perna, só sei que marcará. Tolo, pensava que chegara o dia da derrota. Derrotado fui eu. Ao fim do jogo, estou morto.
Alterno o olhar entre a televisão e o teto. Vejo leves e tranquilos os franceses. Vejo a esquina da cortina com a janela. Vou voltando à vida. O sofá, que fora guilhotina e caixão, vira divã. Por que me sinto assim?
A França joga um futebol majestoso. Que merda. Deschamps solta seus craques ao mundo e permite. Tamanha a naturalidade que não parece haver esforço. Os gols, cedo ou tarde, sairão. É o que cada toque na bola transmite. Entre a altivez e o cinismo.
Olise acende meu desgosto. E o de muitos por ser mala. Mas isso não basta. Quero ver futebol. Uma burrice, uma grosseria, e depois algo encantador. Então a bola desvia no sueco e, como se já estivesse nos planos, o camisa onze abre a mais bela bicicleta. Tudo o que faz é um movimento de compasso, um passo de ballet. Prefiro o feio.
Será? Ou não é inveja? Mesquinharia? Só o Brasil pode ser assim? Viajo na memória que, aos vinte e um anos, nem minha é. Lembro de Garrincha contra os franceses em 1958. Éramos nós. Eu nunca fui.
Meu pai diz que deveria me alegrar. “É o futebol arte”. Vraiment. Aprecio, reconheço, mas não gozo. Pelo contrário. Toma-me algo. Começo a entender que talvez não seja o passado.
“O absurdo é reconhecido e aceito, o homem se resigna a isso e, desde esse instante, sabemos que ele não é mais absurdo. Nos limites da condição humana, que esperança é maior do que aquela que permite escapar a essa condição?”
Albert Camus
Há quem veja a França como campeã inevitável. No desejo pela sexta estrela, nego. Quando entram em campo, me machuco. O futebol está sempre desnudo ao absurdo. E, por isso, sofro.
Les bleus de 2026 parecem uma força a rivalizar contra a vida. Jogam a certeza do caos contra a parede. Me encurralam. Melhor seria aceitar, desistir. Porém, percebo vagos sinais nos céus de inverno que me trazem uma razão de viver. Essa dúvida tem sabor de esperança e angústia. Quem será Paolo Rossi?
“É pela humildade que a esperança se introduz. Porque o absurdo dessa existência lhes assegura um pouco mais da realidade sobrenatural. Se o caminho desta vida termina em Deus, há pois uma saída.”
Albert Camus
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Fantástica Cultural, 27 mar. 2022. Disponível em: https://www.fantasticacultural.com.br/artigo/865/a_esperanca_e_o_absurdo_na_obra_de_franz_kafka_por_albert_camus. Acesso em: 2 jul. 2026.
