A Crônica #004 – 2025, bons tempos!

Uma retrospectiva de 2025, entre a saudade do que já se fechou e a curiosidade pelo que ainda está em jogo

É, caro leitor e cara leitora. O ano chegou ao fim. E é inevitável lembrar e se conectar com o milagre que o eterno Carlos Drummond de Andrade tão magistralmente descreveu. Passam-se doze meses como doze vagões de um trem que nos atropela seguidamente, reduzindo-nos a pó; e então basta uma passagem de ano para estarmos magicamente recuperados, descansados e empolgados para o novo ciclo.

O calendário é realmente uma invenção genial. Imagine viver um tempo só, contínuo, como uma maratona infindável? Seria mais verdadeiro, mas também muito mais angustiante. Bem que se fez de repartir a experiência humana em ciclos. Só assim para entendermos que os fins extenuam à mesma medida em que os reinícios revigoram.

O futebol é isso também. O jogador nem percebe, mas ele nunca para. Tá sempre treinando, correndo, examinando, tratando. Quando não joga, ainda assim joga. Se ele perceber que só faz a mesma coisa, vai enlouquecer. Mas ele não percebe porque o tempo futebolístico é repartido em temporadas. É como no videogame: troca a temporada e a barrinha de stamina fica cheia. Por mais que o tempo corrido quase nem tenha diferença, o tempo cíclico faz questão de dizer: você renasceu.

Ainda, a temporada 2026 no Brasil será ímpar. Já pensou que daqui a menos de um mês já tem Brasileirão de novo? Que trem de doido. E se, por este capricho, há certa licença para dizer que o tempo não existe, não há razão para trazer a este mini-ensaio um caráter de “retrospectiva 2025”. 

Há, ao contrário, como para os próprios clubes, uma certa formalidade inter-temporadas, para tentar compreender o que se passou – mesmo sabendo que talvez não haja tempo para corrigir.

E corrigir o quê? É futebol, porra!

Vamos, então, ao que de melhor, pior, mais marcante, mais gravável na história o ano nos brindou:

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Flamengo – o time do ano

A começar pelo mais óbvio. Não poderia ser outro o melhor time da temporada senão o campeão do Brasileiro e Libertadores, no que repetiu a inédita façanha de 2019 e foi análogo à notável de 2022, que também teve dobradinha nacional-continental.

O que merece menção é que este é um Flamengo diferente. Se fora o Brasil nas ocasiões passadas – hibridizado com Jesus, puritano com Dorival -, é agora, com Filipe Luís, o mais da boa e velha tradição alemã. Racional, letal, cozinha tempo com bola no pé, planeja, defende com solidez, ataca com precisão. Pelo chão, às vezes encanta, mas não sempre: é pelo alto que vem a maior arma – com os zagueiros no front. Ora parece a coisa mais moderna do mundo, ora é um velho teimoso que diz “daqui eu não saio”. Mais alemão, impossível. Se é por influência da germaníssima Jaraguá do Sul, terra de Filipe, não sei. Mas é o Das Auto do Brasil.

Problema é que em matéria de frio, ninguém bate a Rússia. Só de ler este nome, a Alemanha se arrepia. E bota frieza no goleiro Safonov, que defendeu quatro cobranças flamenguistas na decisão do Mundial (Intercontinental o escambau!) e deu a taça ao Paris Saint-Germain, impedindo um conto de fadas rubro-negro. Tudo bem: sem a cereja, ainda há bolo.

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Arrascaeta – o craque do ano

Do Brasil, nem tem discussão. Mas dá para ir além. Teria alguém no mundo, isso é, em todos os cinco continentes, jogado melhor em 2025 do que o flamenguista? A FIFA jamais cogitaria. Mas como aqui não atendemos a lobbies e achaques infantinos, o uruguaio estaria, sim, vivo na briga.

Com quem? Lamine Yamal, a grande sensação que custa a passar de “sensação” para “permanência”. Cole Palmer, o craque gélido inglês que brilhou na primeira Copa de Clubes – campeonato que foi um barato, já já eu falo disso. E os de sempre: Bellingham, Mbappé, Haaland, nenhum tão genial em 2025. Sei não… ainda sou mais o sul-americano do que todos estes. Ah, e convenhamos: todo mundo bem acima de Ousmane Dembelé, o “melhor do mundo” na quimera fifiana que sequer é titular absoluto em seu time, não é quiçá um dos 5 ou 6 melhores do PSG. É isso, e cada vez menos gente liga para os ballon d’ors e the bests por aí. Já era hora.

Então tome nota: Arrascaeta, o camisa 10 mais camisa 9 do mundo, nos nossos livros, é o melhor jogador de 2025. Repita: Arrascaeta, o melhor jogador do mundo em 2025. Pode falar sem medo: depois de 28 anos (desde Edmundo), o melhor do mundo joga aqui, nesta terra que Odete Roitman odeia, mas nós amamos.

Se a FIFA quer acreditar, por que nós também não podemos?

PS: o leitor bem sabe que ser o melhor de uma temporada não é a mesma coisa que ser o melhor jogador tecnicamente em atividade. Neste segundo critério, não há para onde fugir: o melhor é o espanhol Lamine Yamal.

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Mirassol – a grata surpresa do ano

Outra unanimidade. Um clube centenário que habitou entre o segundo e terceiro escalão estadual durante grande parte da sua história, começa a subir as escadas e de repente pinta na primeirona nacional.

Legal, simpático, mas… não vai aguentar. Foi o que eu, você e até mesmo os 60 mil mirassolenses pensaram. Era o óbvio: estreantes na mais alta divisão costumam se dar mal. Mas, como você acompanhou, foi bem o contrário. 

Um time leve, dinâmico e preciso, o bastante para merecer a digna alcunha de carrossel. Já houve um Carrossel Caipira no futebol paulista, mas a verdade é que o Mirassol transcendeu e muito aquele já memorável Mogi-Mirim. Outro dia, lembrando do timaço recente do Leverkusen, inventei: “relógio suíço”. O bom futebol rendeu um fruto inédito e recordista para o futebol nacional: 4ª colocação e vaga garantida na Libertadores.

Qual o segredo? Por onde vai, o técnico Rafael Guanaes é perguntado sobre o xis da questão. Numa dessas aparições públicas, contou que, antes ou logo no início do Brasileiro, o clube decidiu vender o lateral Zeca e o atacante Iury Castilho ao Coritiba, ainda que ambos fizessem parte dos planos para a temporada. O motivo? Os dois fizeram postagens polêmicas nas suas redes sociais e, logo depois, Guanaes sentiu que o clima do elenco ficou mais pesado.

Alguém ainda duvida do poder da energia leve?

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Corinthians

Se não tivéssemos este épico surreal do Mirassol, a surpresa do ano seria corintiana, não lhe reste dúvidas.

E não é porque um Sport Club Corinthians Paulista pôs a mão em duas taças na temporada, coisa que se tornou até comum para o clube de 30 anos para cá – e lembro do fantástico 1995, quando faturou exatamente o Paulistão e a Copa do Brasil.

Mas porque um clube que tem invasão de torcida ao CT, impeachment de presidente, este presidente indiciado por lavagem de dinheiro e associação criminosa, outros três ex-presidentes sendo investigados por uso indevido do cartão corporativo, cabo de guerra de executivo de futebol e conselheiros, toma transfer ban, deve mais de 100 milhões para ex-atletas, atrasa o 13º dos funcionários enquanto mantém um jogador caríssimo hospedado em um dos hotéis mais luxuosos de São Paulo e termina o ano com uma dívida de R$ 2,7 bi conseguiu, esportivamente, ser o segundo clube mais bem-sucedido do país em 2025.

Driblou os problemas, ou simplesmente os varreu para debaixo do tapete, e seguiu em frente.

Diz-se o clube mais brasileiro. E está coberto de razão. Vai Corinthians!

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Palmeiras

Com boa saúde financeira, nem um terço dos problemas do maior rival e investimento recorde, foi superado pelo Corinthians na final do Paulista, no mata-mata da Copa do Brasil e terminou bi-vice do Flamengo, seu principal competidor, no Brasileiro e Libertadores. Ah, e ainda reviveu revés para um antigo algoz, o Chelsea, na Copa de Clubes, o Supermundial.

Sou contra esse negócio de “decepção da temporada”, “bumbumbum do ano” e afins. Mas não dá para disfarçar que o palmeirense tem toda razão de terminar o ano chateado.

Teve quem dissesse, e não poucos, em dado momento do ano, que este seria o melhor Palmeiras da era Abel Ferreira. Eu concordei, e sigo concordando, mesmo com a queda de rendimento no fim e a culminância da primeira temporada em branco desde o início da vencedora trajetória do português.

Basta lembrar que o melhor Palmeiras da era Parmalat, o de 1996, era franco favorito a tudo e levou só o Paulista. O de 1997, quase tão bom quanto o do ano anterior, passou em branco. E os não tão geniais de 93 e 94 venceram. Os menos virtuosos ainda, de 98 e 99, também.

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Copa do Mundo

De semanas para cá, com a definição da grande maioria dos 48 classificados (jamais irei me acostumar a isso) ao Mundial, a óbvia expectativa estava no sorteio dos grupos.

Com Curaçaos, Jordânias e demais “miqueimouses” da bola, ficou praticamente impossível um grupo 100% competitivo, sem ao menos uma seleção que destoasse gritantemente pela fraqueza técnica. No grupo do Brasil não foi diferente, com o Haiti sendo o “miqueimouse”. Agora, dos outros dois, Marrocos e Escócia, eu devo dizer que gostei muito.

Não sei de qual lado o leitor está, se prefere a molezinha para passar fácil aos mata-matas ou gosta de sentir o gosto de sangue logo nas primeiras partidas. Fico do segundo lado e para tal me apego às circunstâncias históricas: em 1994 e 2002, anos das nossas últimas conquistas, nos deparamos com Suécia e Turquia, duas pedreiras nas fases de grupos. Tão pedreiras que acabaram chegando até as semifinais, sendo derrotadas exatamente para nós. Tanto suecos quanto turcos foram a “vacina” que nossa equipe tomou na fase inicial para nos preparar para as dificuldades das eliminatórias, sobretudo nos reencontros contra eles próprios.

Para valer da comparação, em 2026, Marrocos é cotado como o grande “vacinador”. Mesmo porque tem condições de alcançar uma nova semifinal, a exemplo de 2022, e, até, quem sabe, reencontrar o Brasil no mata-mata. Pelo menos é o que promete o otimista treinador Walid Regragui.

Mas não me assusta, confesso. Venho dizendo por aí: a partida mais difícil será contra a Escócia. E provavelmente a mais gostosa de assistir. Agradeça que já será na 3ª rodada. Se fosse a estreia, a coisa poderia azedar, viu? A Escócia, país que tem uma relação ímpar com o futebol, já se encontrou com a Canário por quatro vezes em Copas. Nunca perdemos, mas, tirando os 4×1 de 1982, sempre foi sufoco: 0x0 em 74, 1×0 em 90, 2×1 em 98.

No mais, não se espera nada diferente do que um avanço no 1º lugar de sempre, o que, em 2026, dará direito de encontrar uma 3ª colocada, em tese um teste mais mamão-com-açúcar, na inédita fase de 16 avos. Dali em diante, será como os deuses da bola mandarem. E nem adianta ficar olhando os chaveamentos porque, como dizia um antigo professor, o diabo está logo ali na esquina, e ele mora nos detalhes.

Deuses e diabos na terra do sol. Porque faz calor na América do Norte em junho. Vem, 2026!

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Copa do Mundo… de Clubes?

A grande novidade do ano ficou por conta da nova invenção fifiana: uma Copa do Mundo, nos moldes do que foi a competição de seleções entre 1998 e 2022, só que com os clubes.

Que ideia, hein? Parece tirada dos torneios de Playstation em que se reuniam vários amigos, cada um escolhia um time. Um ia com Real Madrid, outro Milan, outro Flamengo, Santos, Seleção do Mundo e por aí vai. Lembra? Qualquer um que conheça um pouco das tramóias da dona FIFA sabe que é muito mais um jackpot do carequinha do que uma proposta competitiva real pelo mérito esportivo.

Mas que prometia ser divertido, ah, isso prometia.

E foi.

Perdoem-me passar por fetichista, mas foi um barato ver times brasileiros desbancando alguns europeus, até para dar um basta na história de abismo técnico para a Europa. Se fôssemos pela cabeça de alguns pachecões às avessas da nossa crônica, acreditaríamos que o Flamengo tomaria um banho tático de um Elche da vida, que o campeonato croata vence com sobras o nosso em intensidade (como amam essa palavra), e que hoje até a Costa Rica já é mais “país do futebol”.

Um pouquinho do orgulho sul-americano foi resgatado também ao ver um escrete medíocre do Boca Juniors estralando o chicote contra Benfica e Bayern.

É meio que um alívio: “estamos vivos”. Sei lá. Vocês vão entender.

Mas o principal resgate não foi nem do orgulho técnico, mas de um certo orgulho lúdico do futebol. Al-Hilal eliminando o poderoso Manchester City e caindo na fase seguinte para o Fluminense. Quem não se diverte com isso? Messi, por um time dos EUA, fazendo gol de falta e tirando o Porto. Sergio Ramos, pelo Monterrey do México, marcando contra a Internazionale. Nem comento um time brasileiro vencer o atual campeão europeu e depois acabar eliminado por outro brasileiro. 

Rapaz do céu, isso é o mais puro capital afetivo e lúdico do futebol. Não dizemos sempre que o futebol tá perdendo a graça? Vamos dar valor.

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Rapidinhas do ano

Abelão salvou o Inter? Há controvérsias, viu? Chamado às pressas para apagar o incêndio na casamata, com o Colorado na zona faltando duas rodadas, Abel Braga perdeu para o SPFC na Vila Belmiro e fez a lição de casa contra o Braga no Beira-Rio. Ou seja, ele, que nem mais técnico é, fez o que 98% dos técnicos fariam na mesma situação. Quem salvou de verdade o Inter da degola foi o Palmeiras, ao bater o Ceará no Castelão e derrubar o Vozão no lugar. Mas isso não vende jornal. Tudo bem, tudo bem. Qual é cara? Você deve ser legal em festas, hein?

Qual a novidade? Jair Ventura salva mais um: dessa vez, o Vitória, já dado como virtual rebaixado no momento que o filho do tricampeão chegou. Com Ventura, não tem essa. Fecha o cadeado, toma fôlego e vai. Se ele fosse francês em 1794, os jacobinos o odiariam. O que ele manja de tirar gente da degola não tá no gibi.

Fé no pai que a taça sai: time botar marcha lenta e entrar de férias depois de ganhar título a gente vê aos montes. Mas time de ressaca e férias antes de ser campeão, aí sim é coisa rara. Nos três meses de hiato entre as quartas e a semifinal da Copa do Brasil, Dorival Júnior e o Corinthians simplesmente botaram na cabeça que a taça já era deles, e então só resolveram aguardar por dezembro. Enquanto isso, levaram o Brasileiro na maciota. Ganhou aqui, perdeu ali, jogou assim, assado, ninguém se importa. O corintiano relembrou o sabor de 2012, quando, após vencer a Libertadores, jogou praticamente todo o campeonato nacional de sangue doce, só esperando pelo Mundial, do qual terminou campeão. Obrigado pela lembrança, Dorival, de cuja coragem nunca desconfiei, cujo trabalho jamais critiquei.

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Para relembrar – 30 anos depois

Há boas semelhanças entre 1995, meu ano favorito absoluto no futebol, e a temporada que se passou. 

Como já mencionei, o Coringão foi Campeão Paulista e da Copa Nacional. Se em 95 o grande nome era um jovem humilde com pés de anjo, em 2025 é um internacional badalado tratado a pão-de-ló. É, meu amigo, os tempos mudaram. Em 95, o melhor campeonato do ano foi um estadual, o Carioca; em 2025, tem quem diga que também foi um estadual, o Paulista. A dobradinha “melancia” na Série B também se repetiu, só inverteram-se os postos. Em 95, Atlético campeão com Coxa vice, este ano o lado verde deu o troco. 

Tirando isso, tudo são diferenças: no longínquo 95, esta dupla Atletiba corria atrás de um protagonista estadual, que chegou a ter Vanderlei Luxemburgo no comando; em 2025, este mesmo time chegou ao fundo do poço, mas, com a venda da SAF, vê luz no fim do túnel. 

No Brasil, o grande destaque não foi um jovem humilde vindo do Pará e que foi abandonado num hotel pelo rival do time onde depois brilharia, mas um já milionário velho conhecido de sua torcida; os melhores atacantes não vieram do estado de Goiás, mas das ligas da Espanha e Itália. Em 95, não haviam SAFs e os clubes brasileiros, quando pagavam, ainda era em cheque, ou mesmo na boca do caixa.

Mundo afora, em 1995, meu Ajax assolou a Europa; em 2025 só fez vergonha na Champions. Em 95, Paris Saint-Germain era um clube humilde que montava uns bons times; Manchester City era um time inconstante, que mal ficava na divisão; Em 95, existiam clubes com empresários, mas clubes-empresa eram raríssimos. Não existia nem bola com chip ainda, o que dirá VAR, impedimento semiautomático. A FIFA, ainda presidida por João Havelange, ampliava a Copa do Mundo de 24 para 32 seleções, e muitos chiaram, dizendo que o dinheiro mandava em tudo e que o esporte estava contaminado. Em 2025, bem…

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Caro leitor, cara leitora…

Você sabe, toda retrospectiva vai carregar um cheiro de saudade, porque o passado, esta pérola fechada, por vezes foi melhor, mas invariavelmente está resolvido. O que passou ganhou contorno, começo, meio e fim, virou história. 

O presente, não: ele ainda sangra, ainda confunde, ainda não se explica. Nosso mundo parece mais barulhento, mais caro, mais cheio de telas e cifras. Mas é o preço do calendário, esse corte artificial que nos permite olhar para trás e dizer: “ali era outro tempo”. 

O futebol, como a vida, troca a roupa, os donos, a linguagem. Mas sempre haverá um gol que escapa da estatística, um jogo que foge do roteiro, uma campanha que ninguém previu. Haverá ainda riso, raiva, memória sendo criada. E enquanto houver essa estranha capacidade humana de transformar noventa minutos em lembrança, promessa e conversa de mesa, sempre haverá bons tempos. Mesmo agora; ou especialmente agora.

Até o próximo ano.

Feliz 2026 a todos.

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