Sobre futebol, encontros e permanência
O texto não se pretende autobiográfico, mas julgo ser pertinente atravessar alguns momentos da memória de quem vos escreve, a fim de expandir horizontes a partir dela. Lembro que uma das minhas atividades favoritas na infância era vagar pelas ruas do bairro ou mesmo da cidade, na esperança de encontrar a minha avó materna ou algum dos irmãos do meu pai, que sempre descolavam trocados. Que não tardavam muito em minha posse, pois imediatamente iam para o caixa de alguma locadora, que era, na realidade, o destino ainda incerto desses trajetos.
As locadoras e os telecentros, na minha infância, eram como adentrar um mundo de infinitas possibilidades que, em casa ou em outros ambientes, eu não tinha. Então, a história das minhas relações com a música, os animes e mangás, o cinema e o futebol — sobretudo o europeu — é também a história desses encontros anteriormente mencionados, do brilho nos olhos ao olhar uma prateleira ou simplesmente desbravar a internet, e também do sentimento de tristeza ao olhar na tela: “tempo esgotado”.
Mas, apesar de sempre interrompida pelo relógio, a minha navegação por esses infinitos continentes foi diária durante alguns anos. Fui um frequentador religioso dos telecentros e, quando um encontro resultava em uns trocados, das locadoras. Dentre os habitantes que mais me interessavam daquele mundo de telas, cabos e prateleiras de CDs, estavam, por exemplo, Naruto, Batman, Chris Brown, Ibrahimovic e Cristiano Ronaldo. E, nessa constelação, certamente o autor daquele icônico gol de falta contra o Arsenal na semifinal da Champions 2008/09 merece algum destaque.

Enquanto meus irmãos mais velhos já eram fissurados nos jogos do futebol europeu, o meu interesse em particular estava menos neles do que em alguns dos jogadores do velho continente que a internet havia me apresentado. “Cristiano no Manchester United, gols e dribles” é uma frase que certamente teve um papel fundamental no meu processo de alfabetização. Esses vídeos de variadas durações reuniam quase tudo o que eu gostava: futebol, música e jogadores. Nesse caso, um jogador que já naquela época me deixava embasbacado devido à quantidade de novidades que produzia.
Se anos mais tarde foi se convertendo cada vez mais em um jogador econômico nas ações e nos gestos, aquele CR7 era um jogador de exageros. Sua técnica era muito superior à dos demais, e não existia intenção de esconder isso. A maravilha do vídeo que os primeiros anos de YouTube capturavam parecia apreender bem essa forma-jogo de CR7 na época e, mediado pelo vídeo, esse foi talvez o grande responsável pelo meu interesse inicial por futebol.
O gol é resultado de uma sequência de ajustes e reajustes entre corpos, espaço e tempo. Inicialmente, o universo dos vídeos me introduziu a esse momento de gozo e às ações determinantes, em termos plásticos, para que ele acontecesse: os “highlights”. Eles ofereciam uma forma condensada do impacto, uma espécie de evidência do desfecho. Conforme fui crescendo, porém, percebi que já não saciavam minha fome. Não eram mais capazes de dar sentido às minhas explorações, porque percebi que isolavam justamente aquilo que já me interessava: não só o ponto de chegada, mas também os caminhos.

Por isso, passei a ir em busca dos jogos. Não por ter certeza do que encontraria neles, mas porque havia ali uma continuidade que os highlights não eram capazes de sustentar. Nesse sentido, naquela altura os jogos foram menos uma resolução dessa busca do que uma extensão dos acontecimentos que, ainda que eu não tivesse plena consciência disso, começaram a estabelecer uma nova relação entre mim e o futebol. O que entendo hoje é que talvez os caminhos do gol tenham reeducado meu olhar no seguinte aspecto: não mais me interessavam somente o espetáculo decorrente das ações individuais isoladas, mas a rede de relações entre corpos e espaço que as tornavam possíveis.
Não que, à época, isso estivesse claro para mim. O que me moveu foi mais o mesmo ímpeto de buscar a novidade que despertou meu interesse por futebol em primeiro lugar. Em outras palavras, falo dessa mudança na maneira de olhar como uma continuidade, e não uma consequência. Esses primeiros amores pelo futebol e pela arte, em todas as maneiras que minha realidade material me permitia acessá-los, e esse ímpeto curioso de tentar sempre enxergar o horizonte me levaram aos estudos que passei a fazer de ambos os temas já em uma fase tardia da adolescência. O que hoje me permite entender, sem linearizar demais (toda vida, como se sabe, é muito complexa para caber em linhas), que aqueles encontros não constituíam etapas sucessivas de uma trajetória, mas diferentes manifestações de uma mesma disposição para permanecer aberto ao que ainda não conhecia.

Encontros, relações, talvez sejam essas as palavras-chave. Não posso dizer que o encontro entre mim e Cristiano, em uma daquelas minhas navegações por continentes a mim desconhecidos (e não me lembro exatamente qual), tenha sido o mais decisivo da minha vida. Posso dizer, entretanto, que o prazer e a empolgação que tomaram conta de mim ao assistir àqueles vídeos continuam a me acompanhar quando assisto a outros jogadores, quando leio livros ou quando assisto a filmes. Talvez não sejam as origens que constituem as grandes relações, mas a permanência. Talvez por isso já não me lembre de todos os encontros daquelas navegações, enquanto alguns permanecem ecoando.
Voltando ao CR7, depois de ter iniciado meus estudos sobre análise, comecei a entender, em termos técnicos, o que a minha percepção já enunciava há muitos anos; não é só o destino da bola que ele domina, mas também seus caminhos. Como alguém que organiza as relações e as rotas que participam dessa travessia. O que vai desde remover a tensão de um passe com seus domínios a oferecer intervenções mínimas que geram alívio a um companheiro pressionado. De imaginar um gol a partir de tabelas a oferecer um desmarque milimétrico para o portador. Na compreensão profunda da interdependência em um esporte coletivo, vimos um jogador cada vez mais radicalizado em uma maneira de estar em campo que buscasse sempre abrir novos caminhos para si e para os demais através da interação e da organização conjunta.
Em outras palavras, o eixo organizador de novas possibilidades em uma rede de relações. Mas que, não sem alguma ironia, podem perpassar o campo de futebol e adentrar o da percepção. Cristiano Ronaldo está indo para a sua última Copa, prestes a se aposentar. Outra das mensagens de “tempo esgotado”, nesse momento, bate à minha porta. Dessa vez, meu sentimento não é de frustração, pois aprendi que uma travessia não se esgota nos pontos de partida e chegada, mas no que permanece do caminho que percorremos entre eles.

