O saudosista e o neófilo

O futebol já não é o mesmo de anos atrás. De poucos anos atrás. Nada mais natural: investimento, ciência e tecnologia, informação, globalização, capacidade física dos atletas, revoluções táticas: o jogo vai se transformando à medida que os próprios elementos de jogo e a realidade material e cultural que o cerca se desenvolvem.

Que não é um problema particular do jogo, todos sabemos. Basta um olhar à volta para ver o mundo, o mesmo velho mundo, deixando para trás de si um galho seco e inútil que se desprende, em pedaços, de seus ombros, transformando-se em pó tão logo o vento passa, indo agarrar-se à flor mais certa da novidade. – Angústia: ou andaremos doentemente sobre escombros buscando o tempo perdido por amor ao passado, ou vamos celebrar cada promessa vazia de futuro.

 “Ei! Fora! Estas latarias velhas não cabem mais em nosso mundo” – grita o neófilo. “Não vês que o mundo mudou, que não é mais assim?”. Mas o saudosista vê e sabe. Justamente por isso é saudosista: porque sentiu mais do que todos a dor excruciante de ter sido aniquilado pelo tempo. Ele é quem mais sabe que passou, e se tornou o único refúgio do passado: sua memória e seu amor que, embora fortes, não podem possuir, simultânea e perfeitamente, a vida interminável. Ah, Boécio…

Não desprezemos o saudosista. Amor ao velho ainda é amor. Há de preservar o nome, as coisas e o jogo. Que bom! Só ele verá que o que há já havia; perceberá o traço da permanência, do permanecido – esse mistério. Unidade na diversidade: será filósofo. Quando diz que já era assim, está na verdade esticando os braços para juntar, numa só imagem, as diferentes épocas e diferentes formas que o tempo espalhou picadas. De tanto esticar, porém, está doente. O saudosista é um doente, que fique bem claro. E a sua doença é o ceticismo.

Gravíssimo pecado: o contra a esperança. Nunca jamais será tão bom, o belo passou, a vida era melhor, tudo perdeu a graça… será mesmo? O ressentimento toma conta; a sensação de que estão destruindo o seu mundo; não há mais lugar para ele. Pobre velho. Ficará cada vez mais agressivo, nervoso e, acima de tudo, radical. Vai se bestializar.

O neófilo, é claro, não comete esse pecado. Crê e espera que o que vem depois pode e deve ser melhor. Não se paralisa diante do mundo. Lida com o jogo da mesma maneira de sempre, com o mesmo entusiasmo, com a mesma alegria. A energia não tem acabado. Aqui o passado não tem a palavra final e nem a exclusividade sobre o talento e sobre as grandes narrativas, pois o tempo traz consigo o sopro da vida, e o jogo se renova. Por causa dele, podemos dizer, perpetua-se o jogo. Há continuidade. Há futuro.

Mas – se por imaturidade ou ingenuidade não sei – ele não percebe que o tempo lhe engana: promete a novidade, mas lhe entrega a mesmice travestida com novas roupas, nova maquiagem e nova maneira de falar. Sua linguagem não inventa o mundo, não cria realidades. Manipula-se o vocábulo; não o Logos. A palavra perde poder. O neófilo tem por característica a incapacidade de ligar conceitos, de comparar o antigo com o novo, de destacar o parecido e o permanente. Se o saudosista é doente, o neófilo é louco; o saudosista sofre no corpo, o neófito, na mente.

Acima de tudo, o neófilo fará de tudo para destruir. Está mais interessado em matar o passado do que parir o futuro. O neófilo é um assassino. O neófilo matará o seu pai. O neófilo é um parricida. A guilhotina está armada.

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