Os inocentes de Miami

Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

Carlos Drummond de Andrade

CRÔNICA ESCRITA NO DIA 01/03

            Inusualmente, hoje dei para assistir a uma partida de Premier League, coisa que há meses não fazia. O modorrento campeonato inglês não me desperta mais emoção, nem durante os muitos minutos da primeira etapa nos quais o reles décimo quinto colocado, Leeds United, jogando em casa, pôs o todo-poderoso Manchester City em apuros. Afinal, sabia eu que, cedo ou tarde, o óbvio haveria de consagrar-se – como, enfim, ocorreu: triunfo dos visitantes por 1 a 0.

            Lembro-me de quando o atual técnico do Leeds, Daniel Farke, debutou no top tier bretão. Cabeludo ao estilo Jesus Cristo, o lépido alemão empalidecia os estudados analistas pela façanha de implantar o tal gegenpressing, última moda da bola à época, em um time de segunda – o seu Norwich City. Pobre coitado desse rapaz, pensei, ao ver aquela modesta equipe que, feito a Seleção Brasileira, esbanja o verde e o amarelo na camisa e adota um canário como mascote, voar feito sapo com as costas derretidas por uma colherada de sal no ano de retorno à elite.

            De volta ao presente, também me compadeci com Pep Guardiola, careca irremediável, a quem Farke poderia enviar uma ou duas madeixas da vasta cabeleira em troca de algum sucesso no árido métier do ludopédio. Resolvi eu operar o câmbio que havia prescrito aos infaustos treinadores e preteri aquela insuportavelmente previsível chatice britânica pela – aí sim relevante – final do campeonato paranaense entre Operário e Londrina.

            Nunca me esquecerei, na vida dos pixels tão castigados de meu aparelho televisor, da majestosa imagem sabática do Germano Kruger, de arquibancadas baixas e lotadas, de sol a pino às quatro da tarde e de gramado esburacado, visivelmente arenoso, sobre o qual pisavam o alvinegro e o alviceleste mais tradicionais do interior do Paraná. Ou será que esquecerei?

             Pudera, no instante em que avistei a augusta cena, ainda me encontrava absorto por propaganda do canal anterior, veiculada despretensiosamente às vésperas da censura por mim impingida à medíocre prática desportiva que se deslindava do outro lado do Oceano Atlântico. Naquele infame comercial, as cores Blues não provinham do Tubarão londrinense, porém antes do londrino Chelsea, e seus adversários não ornavam o preto e o branco do Fantasma de Vila Oficinas, mas sim o vermelho-sangue típico do Arsenal. A voice over parecia determinada em querer me convencer de que o principal duelo do dia seguinte, entre os alegados goleadores Viktor Gyokeres, com módicos 10 tentos anotados na temporada, e João Pedro, com 11, seria digno de nota.

            Enquanto Luizinho Lopes e Alan Aal orientavam seus subordinados nas quatro linhas meio apagadas do acanhado estádio a poucos quilômetros do centro de Ponta Grossa, questionei-me: será este João Pedro o camisa nove de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo? Foi então que decidi brincar o meu passatempo predileto: o de tomar as vezes de técnico da Seleção.

             Goleiros: Alisson, Hugo Souza e… Bento, nem pensar, já passou muito vexame no Germano Kruger, no Estádio do Café, na Arena da Baixada e no Couto Pereira, sem contar que foi se esconder em um sub-campeonato ao lado de um famoso ex-jogador em atividade (de quem não direi o nome, sob pena de ser esconjurado pela rara leitora e pelo raro leitor). Ederson, talvez? Não, outro que foi contar o vil metal em uma liga desimportante. Decido pensar no terceiro arqueiro depois, eis que se trata de uma função tão prestigiosa quanto os campeonatos turco e saudita.

            Na lateral direita, preocupa-me o fato de que Wesley e Danilo andaram pulando a cerca com outras posições. Do assunto entendem bem os beques Éder Militão e Léo Pereira, que formariam formidável dupla, aposto, embora o flamenguista deva ficar de fora da lista. Em vez de perder tempo com os reservas de Alex Sandro, na ala esquerda, e de Casemiro, Bruno Guimarães e Andrey Santos, no meio-campo defensivo, vislumbrei logo Alan Patrick e Matheus Pereira como boas opções para a suplência de Neymar.

            Mas será Neymar o camisa dez de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo? Dada a pletora de alternativas de ataque, parece-me incerto: Vinicius, Martinelli, Rodrygo, Raphinha, Estêvão, Luiz Henrique… e João Pedro, aquele do comercial. Abriremos mão de um jovem centroavante em nome do velho craque, capenga do jeito que está? Desisto de vestir a pele do selecionador pátrio. Trata-se de decisão demasiado sensível para se tomar, mesmo a título de brincadeira. Ademais, saracotear por camarotes carnavalescos país afora, com um estupidamente gelado copo de chopp na mão e um polpudo cheque da chopperia no bolso, recebendo conselhos acerca da escalação do time de um intérprete de axé music do alto de um trio elétrico, não há de ser nada fácil.

            Para a sorte do afável senhor italiano incumbido de tais deveres amargos – ou, como diria o agregado José Dias, amaríssimos! –, um dos países-sede do torneio mundial acaba de bombardear o palácio do governo de uma das nações qualificadas para a disputa. Se fosse eu o presidente da Fifa, não deixaria barato, murmurei em meu próprio ouvido. O problema, respondi-me com o canto da boca, é que, de Pep Guardiola, Gianni Infantino herdou somente a calvície – e não a apaixonada militância em prol das causas progressistas. Já Daniel Farke, cuja abundância capilar remete ao falecido aiatolá Khamenei, dispõe da mesma origem germânica que as ideias professadas pelo ofensor Donald Trump.

            Jamais essa Copa será interditada, concluí, um tanto lamurioso. Vide os versos do poeta Drummond, os inocentes de Miami se igualam aos do Leblon: passam um óleo suave nas costas, e esquecem que haveriam de ser banidos do esporte, tal como fizeram acontecer com a Rússia. Deveria eu seguir-lhes o exemplo e, ao admitir que a festa maior do futebol mundial cínica e impreterivelmente por lá será celebrada neste ano, esquecer que nossas cores e mascote se assemelham às do fracassado Norwich, que nossos gramados vivem esburacados, que nossos goleiros ficaram para a titia, que nossos laterais não mais atuam na posição de ofício, que nossos zagueiros corneiam-se uns aos outros, que nossos camisas nove já não marcam tantos gols assim, que nosso camisa dez carece de um dos joelhos, que nosso treinador vendeu-se à Ambev e que nosso esporte preferido se rendeu à hipocrisia de crápulas, pedófilos e genocidas. Hoje, porém, eu apenas esqueci que detesto a Premier League – e dei para assistir a Leeds United contra Manchester City.

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