Treinador, um vendedor de emoções

“Meu velho um dia falou

com seu jeito de avisar

Olha, o mar não tem cabelos

que a gente possa agarrar”

Paulinho Da Viola

Foi a thread do excelente Hudson Martins, sobre a demissão de Filipe Luís, que me instigou a pensar em algumas das coisas que trarei aqui. Se o treinador no futebol moderno, como diz, precisa ser mágico, com antevisão dos eventos do jogo e iluminado por ideias e intenções, existe algo que constrói, da fala às vestes, do campo ao púlpito das salas de imprensa, a imagem quase que inalcançável do mago.

Nomeadamente, me chamou atenção a parte em que diz: “O pensamento e a ação dos treinadores viraram tanto uma commodity quanto um fetiche – que muita gente não vê, mas finge estar vendo por trás de palavras como ‘ideias’, ‘dinâmicas’, ‘moderno’, ‘metodologia’, ‘estrutura’, ‘espaços’ e algumas outras mais ou menos posicionais.”. Há aqui o indicador de uma relação guiada pelo consumidor do jogo, demandando do treinador a postura de um vendedor, que comercializa suas ideias a partir de uma série de ações e comportamentos que constituem seu modo de ser (voltaremos a isso). Resta ao consumidor — torcedor, jornalista ou especialista, este último especialmente relevante porque traduz as ideias enigmáticas — julgar a performance. Ser mágico, dessa maneira, está intimamente ligado à construção de um personagem. Meu ponto aqui é como ela se dá.

Que a mulher de César deve parecer honesta é público e manifesto. Cedo ou tarde, entende-se a vida de aparências às custas do ser. Performar, disfarçar, fingir, esconder… é tudo desse grande jogo que jogamos na vida social. Quem não performa? Erving Goffman, expoente do interacionismo simbólico e importantíssimo sociólogo, compara a vida social à dramaturgia. O palco é o cenário das interações; as ensaiamos no backstage, quando não estamos interagindo, e transmitimos a imagem experimentada como fachada. O cinismo é uma questão de crença ou não na própria performance.

Sem levar ao literal o que diz Goffman, entendo que, em maior ou menor grau, desempenhamos um papel. Normal. O problema é que no futebol, especificamente na atuação dos treinadores, isso tomou contornos cruéis. No fim, se tornou uma economia que seleciona os treinadores que terão apreço de público e mídia e os que não. As coletivas são o clímax da peça, preferidas ao dia-a-dia e às relações, cenas de menor importância na construção desse personagem.

Arlie Hochschild, socióloga americana, em diálogo com o interacionismo de Goffman, viu na economia de serviços a prevalência do que chamou de trabalho emocional, antes do trabalho físico ou intelectual. Vendem-se emoções, antes que o corpo ou a mente. Determinados trabalhos pedem determinadas atuações. Pense numa aeromoça: o essencial é que a fala, o tom, as roupas e o sorriso tranquilizem o passageiro. Isso, que outrora não era uma característica marcante do ofício de treinador, se tornou quase que o principal. O encontro de Mourinho e Guardiola com as redes, mencionado por Hudson, espetacularizou o jogo. Como políticos (também vendedores de emoções, afinal), são forçados a competir entre si a partir de ideias e postura — não me surpreenderá o dia do primeiro debate eleitoral para treinador da seleção. O sufrágio? As redes.

Há aqui um mercado, com delineamento linguístico claro. O treinador desejado é ‘moderno’ e ”autêntico’, dentre outras adjetivações positivas. Obcecado e convicto. Veste terno, mas pode vestir roupas do clube, a depender de como as use. Anda de tal jeito, fala de tal jeito, dá orientação de tal jeito, briga de tal jeito. Diz não aos medalhões e panelas, sim ao pleno controle de tudo. Ar de gênio solitário, mas com a equipe mais atualizada do mercado. Nas coletivas, tem que tranquilizar o torcedor mas também passar a realidade, não pode iludir, realidade é importante, sim, mas se for demais machuca, tem que ter variação tática, não pode esquecer dela, se adaptar é legal, mas tem que ser especialista num sistema, não pode ter muito jogador machucado, nem preservar demais se não tá dando moleza, tem que saber usar a base, mas não pode insistir em bagre, não pode expor os meninos, em jogo grande tem que ter coragem, mas não muita, muita é coisa de pardal. Enfim.

Uma armadilha de ambiguidades e contradições que, na mesma medida que pare treinadores novos, canibaliza todo o resto. Vejam o exemplo de Roger Machado, outro dia o moderno-mais-recente, hoje ridicularizado pelos mesmos motivos que o fizeram desejado, em que pesem as outras razões que bem sabemos. O caso de Dorival Jr. e sua relação com os corinthianos também é boa amostra. A melhor ao meu ver, disparadora do presente texto.

Não à toa, o auge da afinidade com a torcida foi quando deu as caras na coletiva — o grande palco — para pedir que a diretoria não vendesse André. Menos de duas semanas depois, a relação parece ter voltado à estaca zero, a julgar pelas desmedidas reações das redes, que já bradam pela dissolução da comissão vigente e pela eleição de uma nova após a derrota para o Coritiba. A partir de sua personalidade, postura e apresentação de ideias, Dorival nunca conseguiu o afeto genuíno da massa alvinegra nas redes — caso parecido no Flamengo. Sempre prescindível, ordinário e um analfabeto dos livros de feitiço, em posse apenas dos verdadeiros mágicos do treinamento.

Ainda que tenha se provado seguidamente em Ceará, Flamengo, São Paulo e Corinthians, não obstante o trabalho realmente abaixo na seleção. Ainda que partícipe, junto aos jogadores, da conquista de uma Copa do Brasil com dívida de 2 bilhões de reais, em ano atribulado por impeachment e hat-trick de ex-presidentes indiciados. Desde sempre, escuta-se, mais ou menos à miúda: “Mesmo se ganhar título, tem que mandar embora”, “ultrapassado”, “sem sistema”. De jornalista grande, que nunca gostou do treinador, lê-se que “falta variação”, mesmo tendo ganho Copa do Brasil em losango e marcação por zona, Supercopa com linha de 5 e encaixes individuais e jogado Paulista em 4-2-2-2/4-3-3. “Antigo e ultrapassado”, assimilou rápido as tendências de pressão individual e construção com volante lateralizado. Não vale o campo, vale seu papel como ator, que não coincide com os desejos da mídia e do torcedor.

Injustiça, para não dizer mais. Bom timoneiro que é, navegador conforme o mar e ligado à antiga carpintaria de montar o sistema em cima dos jogadores que tem, Dorival nunca se preocupou em achar os cabelos de seu mar, para agarrá-los e mostrar a vitória aos outros como quem exibe a cabeça decepada do animal caçado. Não é de sua personalidade; nunca conseguiu sinalizar o que pedem, mesmo que tente. Não que ele ou qualquer outro precise disso, mas numa mídia futebolística que seleciona a partir do desempenho, me dói que Dorival não tenha conseguido pular nesse barco do reconhecimento, que por mais ingrato que seja, faria justiça ao grande treinador que é.

Rolar para cima