
Ando pelas ruas, pescando com as retinas tudo que está de verde-amarelo. Duas manias: a das bancas de colocarem manchetes gritantes de jornal e a minha de sempre olhar. Duas manias bem legais e interalimentares. Uma delas já diz, sem freio editorial: “dessa vez o hexa vem!”. Queria acreditar. Mas Copa do Mundo é uma coisa maravilhosa, mesmo. Passamos um ciclo inteiro vendo tudo quanto é defeito, descendo o pau no time, nos jogadores, no treinador, naquele personagem de angry birds que colocaram de mascote (ah, aquilo lá tem que criticar mesmo), para toda a desconfiança esvair assim, num estalar de dedos. De repente, não há mais nada tão errado e estamos prontos para vencer qualquer um e levantar a taça. É assim mesmo. O espírito da Copa. Ainda não está assim? Calma, deixa chegar o primeiro jogo, o primeiro gol, a primeira vitória. Tô lembrando aqui da última edição, no Catar: teve velho de guerra por aí que desacreditava – sensatamente – da equipe de Tite e depois, vitória legal contra a Sérvia, outra vitória contra a Suíça, ah, quer saber, se dane, seremos nessa budega aí. E depois ficaria aí chorando baldes pela eliminação nas quartas, aquela que, ironicamente, com cujo contrário nem se atrevera a sonhar anos antes.
Copa do Mundo é maravilhosa, mesmo. Os profetas, nós, já estamos todos botando as garrinhas de fora. O humilde cronista que vos versa até tem um currículo legal como adivinhador – daqueles microtriunfos íntimos dos quais sorrimos sozinhos em silêncio e os cultivamos numa certa liturgia poderosa, ou uma pequena cumplicidade pessoal, mesmo que nada mude na experiência da vida – cravou a decisão de 2010 (embora fosse até óbvio a Espanha lá), as campeãs de 2018 e 2022 e ainda colocou a Alemanha no top-3 de favoritas para 2014 – apostou em Brasil, ó santa e imaculada fé. Desta vez, renunciou ao jogo, não palpitou nada, mas apontou a iminente queda brasileira e o consequente prolongamento do jejum para a inédita marca de 28 incômodos anos. Mesmo assim, ainda manteve otimismo: se acertarmos o caminho neste 2026, 2030 terá tudo para ser nosso. Porque, afinal, a esperança da boa colheita está numa boa semeadura. É isso, literalmente, que diz o título deste texto, esta bela frase no idioma latim, o mais lindo de todos os já reconhecidos pela comunidade internacional. Preciso aprender latim, tá na lista de microtriunfos futuros. Se dane que ninguém mais fala, aliás, quem perde são eles. Mas é sério, não acredito no hexa já neste ano, particularmente boa parte dos considerados titulares intocáveis não me inspiram confiança, mas, sim, posso começar a depositar fichas na geração que segue. Dá para sermos a seleção da semeadura em 2026.
Tempos atrás, ouvi uma ótima expressão que dizia: “um grande time jamais começou ontem [sic]”. No futebol de seleções ela é ainda mais verdadeira. São numerosos os exemplos de seleções que deixaram uma impressão legal na Copa anterior à que venceram. O mais recente é o da França, a geração dos “negros maravilhosos” que chamou muita atenção em 2014. Já estavam ali o cérebro de Pogba, o talento de Griezmann, a voluntariedade de Matuidi e a crucial função “pulmão”, que estava com Sissoko, mas em 2018, teria upgrade com Kanté. A própria Alemanha de 2014 foi a colheita de uma semeadura excepcional, de 2010. Neuer, Kroos, Özil, Müller, Boateng, Khedira, Höwedes, todos já estiveram lá na África do Sul, e já quase levaram o caneco. Parados por uma cabeçada de Puyol – sem dúvidas, um dos mais sinistros destinos já imaginados.
Voltando no tempo, há mais alguns casos. Em 1986, a então Alemanha Ocidental reaproveitou os que pôde da ótima geração de 1982 (Rummenigge, Briegel, Magath, Förster e o goleiro Schumacher), e ficou a um Maradona de ser campeã – já tinha ficado a um Rossi, te entendemos, Alemanha. Mas, no Mundial do México, apresentou Lothar Matthäus, Andreas Brehme e Rudi Völler, simplesmente o que viria a ser a espinha dorsal do grande título caseiro na Berlim já sem muro de 1990 (junto com Klinsmann, que por pouco não estreou já no Mundial anterior também).
Brutalmente reformulada de 1974, a Itália, que parecia estar sem eira nem beira nem Riva nem Rivera, chegou em 1978 com uns nomes novos: Gaetano Scirea, Marco Tardelli, Claudio Gentile, Giancarlo Antognoni, Antonio Cabrini, Francesco Graziani, e um certo centroavante de 21 anos que já mencionamos e não convém ficar repetindo o nome, ok, Paolo Rossi. O treinador também já era o mesmo campeão de 82, o italiano entre os italianos Enzo Bearzot. Conti também estava em 78; brincadeira, esse era o Paolo Conti, goleiro reserva de Zoff (este que já pisava em Copas desde 1970). Essa Itália deixou uma grande impressão no Mundial argentino, terminando em segundo na 2ª fase de grupos – equivalente a ir até a semifinal – e jogando a decisão pelo 3º lugar com o Brasil – este que, se tivesse vencido 1982, estaria igualmente nesta lista. Já estavam em 78 Zico, Cerezo, Batista, Dirceu, Edinho, Waldir Peres… só o Falcão que não, por que hein, Coutinho?
De novo a Mannschaft. Na campanha do vice-campeonato de 1966, estrearam o goleiro Sepp Maier (então reserva), o meia Wolfgang Overath (gosto muito) e um certo Franz Beckenbauer. Mais experientes, os três foram para 1970 já como referências. A eles se juntaram Berti Vogts, Jürgen Grabowski (um atacante habilidoso e dinâmico, meio que um Gnabry da época) e o centroavante, esse tenho que encher a boca, O centroavante Gerd Müller. Deste longo e paciente plantio, veio finalmente o título, em 1974. Sempre Helmut Schön o treinador, ao longo de três copas foi esculpindo a equipe até a forma ideal.
O grande problema das últimas Copas é que em nenhum momento o Brasil pareceu ser a seleção da semeadura. O que lá em 2018 pareceu promissor e indicou caminhos, foi estagnado ou regrediu para 2022. E é lamentável enxergar a verdade sem cinismo de que, se pouco ou nada foi plantado em 2022 – menos ainda regado ao longo do ciclo – dificilmente teremos uma colheita farta.
Argumente-se que isto não é verdade geral. A Argentina de 2018 estava sob o comando brochante de Sampaoli. A França sequer se classificou para o Mundial 1994. O Brasil teve a macambúzia e sorumbática desclassificação ainda nas oitavas em 1990. Pode-se construir um caminho novo em quatro anos, pode-se montar um esquadrão do zero. Isso nem se discute. A questão é que este certamente não seria o caso em uma seleção que briga contra os relógios e praticamente não renovou suas lideranças. Ao contrário, a grandíssima maioria dos que estiveram tanto na Rússia quanto no Catar ou estagnaram ou regrediram seu nível técnico, e ainda assim seguem com cadeiras cativas – e nós seguimos como a “audiência cativa” que os assiste mais uma vez.
Na contraparte, considerando que todos estes medalhões estarão em seu último Mundial da carreira e que o Brasil tomou a correta decisão de abrir as portas à sua nova geração de ouro – Endrick (esse pode grafar três vezes o nome, sozinho já era suficiente motivo do texto todo), Danilo Sant, Baiano!, Rayan, Estêvão que só ficou fora por lesão – nos permitimos acreditar de verdade, pela primeira vez em muito tempo, numa transição verdadeira. Numa passagem de estados da matéria, de uma coisa para outra, uma nova categoria de animosidade e espírito.
Estes caras todos, que certamente começarão o Mundial na reserva, têm todas as condições de ganhar a titularidade ao longo da competição. Se isso acontecer, não trarão apenas uma melhora clara – porque desconfio que sejam já hoje superiores aos titulares da posição. Poderão representar, como foram outros citados, a nova vida da Seleção Brasileira. O sinal: para a(s) próxima(s) Copa(s) eu tô chegando e o negócio vai ficar doido. A ver se as chances de abrir este novo caminho serão abertas em 2026.
No mais, vamos sorrir. Tem Copa. Se o futebol é a melhor invenção do homem, a Copa é a melhor do futebol. Nos encontramos logo que as boas histórias começarem a aparecer. Abraços, juízo e bom Mundial a todos!
