O Brasil Perdeu Para o Projeto Colonial

O Futebol Brasileiro, campeão, só existiu devido às graças, às belezas e à pulsão de vida da sociedade Brasileira. O futebol como máxima expressão da “raça” ficou marcado durante o Maracanazo e a melancolíca Copa de 54. Seria preciso, nesse período, acabar com uma seleção de jogadores mestiços e negros? É o que a crônica esportiva da época e a imprensa hegemônica construia para o imaginário coletivo Negro: um profundo complexo racial.

Na Copa de 58 o Brasil entrou em campo com novos craques, e o comprimisso de uma seleção que via no complexo racial a sua saída. Era preciso embranquecer-se mais, esquecer as impurezas dos outros brasileiros. O mal resultado do craque Mazzola culminou na criação do símbolo máximo da humanidade: o Brasil. Criados na alma de Pelé, o jovem Rei coroado na Suécia, como nunca esqueceu Nelson Rodrigues. O jovem Rei também tinha um companheiro mulato muito criativo e de corpo gingado, este era Mané Garrincha. Esse encontro foi o encontro da Raça, no momento em que se pediu Raça a uma nação que via o horizonte da liberdade à muito pouco tempo. Pelé e Garrincha, filhos do Brasil, são diretamente filhos do ventre livre, da sociabilidade e da cultura Brasileira, muito bem expostas no homem negro brasileiro e no homem indígena brasileiro.

Essa relação nos serve para o jogo de hoje. O Brasil não está olhando para a sua fonte como deveria, pelos mesmos sinais que hora, tiraram Pelé, e Garrincha. Maltrataram Didi, Djalma Santos, Zizinho e outros craques criados da pura costela do Brasil. 

O Brasil continua na tecitura colonial quando olha o futebol do mundo, e a si mesmo. Não reconhece os pilares de formação que formam o sujeito brasileiro e ora, aquilo que fundou o futebol brasileiro da sua forma, recupera então os traços racistas que definiram o tônus e nunca deixou de estar presente em qualquer agencia e relação nas estruturas sociais do “novo mundo”. 

O Brasil fundado por Pelé, sob uma política negra, inquestionavelmente político e banhado na cultura afrobrasileira, nunca foi reconhecido pelas suas bases, pelo engenho e inteligência do povo, mas pelo seu suposto atraso intelectual e moral, tal qual carnavalesco e “terreirizado” como se isso fosse um problema. É preciso ser franco ao analisar o projeto racista do ocidente e a entrada do futebol no Brasil como luta antirracista e afirmação de uma cultura marginal no mundo, onde o futebol em sua forma global e comercializada, tanto como comercializada em curto prazo, fez Pelé, o homem negro, o homem mais proximo do Papa e de Jesus, talvez mesmo, maior que eles, uma entidade viva e ancestral dos povos perseguidos do Mundo. 

Pelé parou uma Guerra, e essa força social está materializada na relação do Brasil livre, afro e indigena bem como da formação social do futebol brasileiro, nas ruas, comunidades, calçadas, centros sujos, roças, bolas de trapos, canteiros, e várzeas; o futebol como saída da pobreza não como manutenção de classe, mas como afirmação (novamente), da Raça.

Isso não deve ser uma análise levada para o lado fetichista, mas deve sim, ser visto os valores de um Brasil-Terrítorio feito pelos brasileiros, feitos em Lampião, Zumbi, Dandara, Machado de Assis, Lima Barreto, Antônio Conselheiro e Pelé. Reconhecendo os valores fundamentais de sua sociedade.

Esse processo-projeto foi sempre uma culpa das seleções brasileiras. Nunca se soube em que ponto estaríamos próximos dos europeus, discursos de grande potencial arrasador que são enfiados em nossas cabeças.

Entretanto, a formação do futebol profissional, quando este ainda não flertava com os valores globais e a verdade absoluta da dependência, nos gerou jogadores que estavam na linha daquilo feito por Pelé. O futebol doce e bonito das tardes, dos jovens Zico, Renato Romário, Bebeto, Ronaldo, Ronaldinho e tantos outros… licença ao nosso belo futebol.

Essa formação é também projeto do futebol brasileiro mais sólido da década de 90, presente nos técnicos e na “onda” que nunca deixou a grande tática do nosso futebol exposta e contestada: o drible. O futebol da década de 90 nos deu frutos incontornáveis na memória, e o seu nível de especialização e escola formou técnicos envolvidos diretamente com um futebol Brasileiro eficiente, explosivo e forte do período, sem deixar cair em armadilhas sobre o fracasso racial.

Porém, nos seus 20 anos, quem prevêu que seríamos arrancados da raiz pela tucha de intelectuais da bola que chamavam nossas escolas de atrasada, e falava da péssima captação bem como nos dizia formar jogadores pouco compromissados, venceria, é um gênio. O discurso rancoroso assumido pela análise tática com um certo tom reacionário foi o estopim do verdadeiro estacionamento do futebol brasileiro no século.

Abro aqui um parênteses tragicômico onde: o futebol brasileiro retrógrado, mal estruturado, que não seguia os padrões da escola moderna, seguia oferecendo os seus melhores pés para o exterior. Hilário, não é!?

Nesse andamento, o último e triste momento está na última onda, onde o futebol brasileiro deixa toda sua criação no lixo, e grita aos quatro cantos: nos colonizam por favor. A entrada dos técnicos europeus, o selo Fifa manager e outras estratégias nucleares para a concentração do futebol na europa nos levou ao fracasso, e isso resulta na eliminação de hoje nas oitavas de final.

Há ainda uma tentativa, e é preciso retornar àquilo que nunca deveríamos ter perdido de vista.

 O Brasil precisa urgentemente olhar para sua base, sua formação, e interiorizá-la, é a única saída para um futebol com identidade, um futebol que não seja a réplica do sonho “desenvolvido”. Não adianta comprar o discurso vendido de “não vencemos europeus”. Isso não é diagnóstico.

O futebol nasce no Brasil como puro fluxo da(s) cultura, como continuação do conflito racial e do batismo do jogo pelas classes pobres, nasce em um terreno que pipoca sociabilidades de vários povos, funcionando como a produção de um verdadeiro caosmos. Como nos lembra Luiz Antônio Simas, se pensarmos a sociabilidade do Rio de Janeiro com gente de todos os tipos, seguindo a linha do encruzilhamento, entendemos como se forma a sociedade brasileira. Um mundo terreirizado, encantado, fertil que fez poder com tudo que tinha em mãos. O futebol é um desses pontos de encanto.

Sem a busca pela origem, não se faz cultura, e o futebol brasileiro fortemente invadido pela mercadologia, bem como de um processo específico da inferioridade racial que ressoa a todo momento, resulta no desencontro entre tudo aquilo que forma o nosso jogo, nossa vida.

É olhar sim para outros processos de revitalização e entendê-los, como o caso da França e de Marrocos, que buscaram na base, na comunidade e na relação afetiva que constroi o futebol, a eleição para o grande futebol mundial, assim como de uma identidade.

O futebol brasileiro deve olhar para o Palmeiras e seu método, muito válido à formação contemporânea, onde prevalece o socioafetivo como instrumento pedagógico das ruas, e olha para o campo de terra e o compreende como pesquisa, que colheu resultados de um futebol brasileiro muito presente em Endrick, Estevão e Danilo, aí está nossa fonte moderna. É pensar a melhor forma de reativar o vínculo do futebol com o povo, de fato buscando entender o jogador brasileiro como sujeito, e não como coisa a ser transformada. Pensar a unidade dessa formação para atingir um jogador que é Ser, que é manifestação do eu.

O futebol é dos escombros, dos mucambos. Vive nos lugares mais recônditos, e não na formação especializada e de captura do sujeito das escolinhas de base. O modelo perdeu, e perdeu-se tudo aquilo que nos fez campeões.

O futebol é máxima expressão, um universal, dos povos do mundo pela cultura. Esse palco é onde se manifesta as maiores belezas da produção humana. Ai está a raiz de Colômbia e Paraguai, que nunca pensaram em deixar morrer o territorio e as coisas cartografadas em seus corpos. O futebol como reunião e como momento de um santo divino, é o caminho mais profícuo para se pensar a cultura, para também, manifestá-la em torno de uma grande narrativa humana, que novamente, só é feita com muita cultura.

O futebol brasileiro precisa de um repaginada séria, que não vai ter(!), pois a intelectualidade é um gozo elitista da pior espécie e o futebol como mercado foi dominado por mecenas e pelo grande capital.

Olhar para a base no Brasil, requer uma reflexão histórica sobre os nossos talentos, a exportação de corpo humano à serviço do mercado, o esvaziamento do futebol interno dos estaduais (ponto forte) e as escolas e sua filosofia. É preciso erradicar o discurso do Racismo, o discurso colonialista de que devemos aprender e construir nosso próprio método, isso exige pesquisa e afirmação de quem somos. Pois, pensar tanto, processos quantitativos, é preciso pensar também nas qualidades. O futebol brasileiro é específico desde de suas camadas mais internas à toda geografia nacional. Não se pode abraçar modelos, mas construir algo próprio que alcance as nossas condições. Fortalecer o futebol interno, que produziu os maiores talentos nacionais, frear a curva de exportação de jogadores, olhar de forma humana para o futebol de base.

Como resultado disso, olhamos Lionel Scaloni, Pablo Aimar, Samuel e suas colocações a respeito do futebol como movimento de cultura, futebol como formado, inegociavelmente por corpos embebidos de cultura que saem por todo o lado. Não é possível jogar outro futebol porque o futebol não se separa do homem, não é um comum, mas um heterogêneo da vida, a diferença. É preciso largar totalmente a verdade do futebol científico e único para esse caminho.

Caras como o Fernando Diniz nunca irão perder sua posição para mim justamente pelo olhar cirúrgico aos processos de aculturamento de uma geração inteira do Brasil. O DT Argentino e AFA também estão de parabéns, sempre.

É preciso pegar na merda. E estar cheio de fome.

Rolar para cima