Para Acabar de Vez com o Homem Livre

“Com a existência recebi uma maneira de existir, um estilo. Todos os meus pensamentos e minhas ações estão em relação com esta estrutura, e mesmo o pensamento de um filósofo não é senão uma maneira de explicitar seu poder sobre o mundo, aquilo que ele é. E, todavia, sou livre, não a despeito ou aquém dessas motivações, mas por seu meio.”
— O que é a liberdade, Maurice Merleau-Ponty.

“Falar do estilo é uma maneira de falar sobre a totalidade de uma obra de arte. Como todos os discursos sobre totalidades, para falar do estilo é preciso se amparar em metáforas. E as metáforas enganam.”
— Sobre o estilo, Susan Sontag.

Pensemos na seguinte situação: um rei se encontra encurralado. Não morto ou ferido, mas encurralado, todos os seus caminhos estão agora fechados. Se trata menos da destruição da sua identidade enquanto rei do que da destruição do seu campo de possibilidades, mas esse fechamento também nos revela que, desde o princípio, todos os caminhos que ele poderia percorrer eram inseparáveis da sua condição de rei, condição a qual ele mesmo não pode tentar destituir; não há possibilidade de renúncia, pois não existe consciência de que existe e é rei. No xadrez, chamam isso de “xeque-mate”.

Podemos falar do estilo de Mikhail Tal, nunca do estilo de um rei. Um jogo de peças, não de indivíduos. Pois a própria existência consciente não é comportada pela estrutura. Por isso, qualquer analogia entre o xadrez e o futebol, mesmo não sendo ipsi litteris, me incomoda. Ainda que mediado por estruturas, nós habitamos um mundo percebido e temos consciência de existir e de ser.

Conhecemos como praia um fenômeno natural fruto de uma série de processos físicos e ambientais. Processos incessantes e de caráter interdependente e dinâmico. Em outras palavras, uma forma de relações materiais do planeta, que nomeamos como “praia”. Os jogos humanos coletivos têm um caráter similar no seguinte aspecto: embora esse efeito seja consciente, um jogo coletivo é também uma rede de relações que, como mencionei em “Memento mori”, são também dinâmicas e interdependentes. Jogar em grupo já é um ato de pensar sobre a ação do outro, um “pensamento tático”, como aponta Mahlo em “O ato tático do jogo“.

O que conhecemos por “jogo de posição” pode ser entendido como um conjunto de procedimentos de treino que buscam organizar e tornar repetíveis certas dinâmicas já presentes no futebol, formalizando a maneira como jogadores ocupam, interpretam e produzem o espaço coletivo do jogo. Mas, mais do que isso, transformando em treino também as relações de reciprocidade perceptivas entre eles. Se Merleau-Ponty define essas relações como se “a intenção do outro habitasse meu corpo ou como se minhas intenções habitassem o seu”, essa forma de enxergar o futebol tenta transformar essa habitação em método.

Esse futebol de “localizações”, como prefere definir Juanma Lillo, é uma forma de tentar tornar inteligíveis e sistêmicas dinâmicas que são pré-reflexivas. Isto é: pertencentes ao acontecimento antes de serem conceituadas. Penso eu que o jogo de posição, então, é uma determinada forma de fazer aparecer o futebol sob certas condições. Lillo define ainda que esse jogo consiste em ir gerando vantagens desde trás. Nesse sentido, o “homem livre” é talvez a figura central, pois é ele a maior das vantagens numéricas que são prioritárias nesse modo de jogar: 1vs0 (Manu Rodríguez), surgindo desmarcado e em condições de gerar dúvidas e desequilíbrios.

Chegar ao 1vs0 não é meramente o ato de encontrar um jogador desmarcado, mas gerar intencionalmente o espaço para o desmarque. Por isso é importante fixar oponentes (seja o portador como condutor, seja quem está sem a bola com o engano), estar nos espaços gerados por isso e buscar quem os ocupa. Ações individuais que são realizadas em conjunto, visando obter uma vantagem coletiva e liberdade uns para os outros, sempre considerando o contexto, como define Xavi: “Mira, hoy en día el fútbol es movimiento constante porque todo el mundo está muy bien físicamente y hay una intensidad muy alta. Si yo paso el balón y me quedo parado y tú me marcas, entonces no hay salida. Por eso se dice siempre lo de toca y sal; pues no, a veces es toca y sal; pero a veces no. En ocasiones, haces ver que tiras una pared y, en ese caso, es toco y me quedo; depende del contrario.”

“A veces es toca y sal, pero a veces no. En ocasiones, haces ver que tiras una pared y, en ese caso, es toco y me quedo; depende del contrario.”

X.H.

Essa frase é menos a descrição de um modelo do que a exemplificação de um critério de decisão mediado por um método de treino. Essa mediação, como se sabe, não poderia infligir ao agente uma condição de peça. O jogo não é um acontecimento subordinado às nossas tentativas de prevê-lo e conceituá-lo. Por essa razão, os problemas enfrentados pelos agentes criativos não se apresentam como questões cuja resposta já repousa em um cardápio de soluções previamente nomeadas. Tais categorias podem tornar certos aspectos do jogo mais inteligíveis; não podem, contudo, substituir o encontro singular entre jogador e acontecimento.

Falamos na busca por “vantagens” como se elas fossem entidades autônomas que simplesmente precisamos fazer surgir em uma superfície neutra, como se, por exemplo, buscar o “homem livre” fosse equivalente a buscar um objeto. Mas o que se busca ainda é o encontro que surge das relações. O jogador não é e nunca poderia ser um sujeito soberano aplicando formas arbitrárias a uma matéria neutra, mas também não é e não poderia ser uma peça que se resume à produção de respostas previamente dadas.

Às vezes tocar e sair, às vezes tocar e ficar; a ênfase que deve ser dada aqui não é nem no sair e nem no ficar, mas no “às vezes”. É a condição que o próprio jogo inflige aos jogadores. Mesmo tendo o norte proporcionado pelo treino, a prática exige deles uma agência criativa e decisiva que pertence ao campo do sensível. O próprio jogar só existe a partir do encontro entre percepção e tomada de decisão com o acontecimento. Entre definir o estar em campo como ocupar ou habitar o espaço, prefiro o segundo termo, pois se trata de um campo vivido, não de um tabuleiro. Estamos vivos: sentindo, desejando, buscando, temendo, percebendo. Um homem livre está livre em relação a alguém (companheiros e oposição) e surge sempre de possibilidades: uma dúvida, um atraso, um erro, um acerto. Uma liberdade que surge e desaparece em instantes.

A herança de Xavi

“La computadora”, como ficou conhecido por parte da imprensa espanhola, tinha uma relação com o jogar que perpassava muito do que coloco em questão nesse texto. Entre o menor brilhantismo espetacular individual de companheiros como Rivaldo, Ronaldinho, Iniesta, Messi, uma ética que o faz definir a si mesmo como “Un jugador colectivo, no individual” (Xavi a Romário TV, 2026) e a herança de um modo de ver futebol que vai de Laureano Ruiz a Pep Guardiola, estava um indivíduo que parecia só enxergar o jogo através dos demais corpos habitando junto dele aquele espaço. A herança de que falo não aparece nele como um conjunto de conteúdos aplicados conscientemente a cada ação, mas como parte de um horizonte perceptivo sedimentado: menos um sistema de respostas do que uma maneira de tornar certas relações visíveis.

Mais do que um “produto de La Masia”, o continuador de uma tradição. Uma continuação manifestada não em documentos, mas em gestos. Quando pensamos no método em que Xavi foi treinado durante quase toda a sua carreira, imediatamente vamos notar vestígios na sua forma-jogo, mas o jogo de posição não aparece primeiro como conceito para depois ganhar forma em Xavi; ele aparece em Xavi como forma sensível antes de poder ser reduzido a conceito. Um estilo não é um ornamento ou uma escolha, mas uma condição.

Os triângulos, as zonas, as alturas e os quadrados ganharam uma autonomia na análise que, por vezes, parece sobrepor-se ao próprio objeto em análise. A exposição inteligível do acontecimento, que é o que justifica a existência dos conceitos, deixa de significar o seu desaparecimento no próprio ato de expor. Ao contrário, os conceitos passam a adquirir uma vida própria. É verdade que Xavi compreendeu como ninguém a formação dos triângulos, os espaços de fase e a busca pelo homem livre. Mas é justamente por matá-los, por fazê-los desaparecer no jogo, que essa compreensão existiu. O treino é uma primeira vida que, ao morrer, deixa seus vestígios numa nova forma de vida muito mais instável: o jogo.

O jogador não é nem prisioneiro nem senhor dessa metamorfose, mas um participante de uma rede emergente de relações em movimento. Um navegador de um mundo que oferece resistência a qualquer tentativa de estabilização. Por isso não penso em “estilos” no futebol como identidades fixas, mas formas históricas de fazer aparecer essas relações. Aqueles que jogam dão uma vida sensível a essas formas. Isto é: um domínio, um drible, um desmarque cria muito mais possibilidades do que qualquer ideia.

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