Regra hermenêutica: o Neymar deve ser interpretado a partir da derrota. Ele é o maior dos fracassados. Já eu sou um covarde e oportunista, naturalmente, pois que esperei a ocasião mais favorável para escrever. Que seja.
Um romance? – Confesso que por muito tempo até pensei que Neymar fosse um herói trágico; aquele que, diante do destino irreversível que os deuses traçaram, abraça a própria sorte. Mas Neymar é mesmo Aquiles? Certamente que não. Tampouco é comédia. Até que cheguei na aventura de cavalaria e por fim ao romance. Porque Dom Quixote quis ser cavaleiro quando não havia mais cavaleiros: a realidade se impôs e assim nasceu o romance.
E o Neymar, por sua vez, é um solitário sonhando com um mundo que já passou. Não é difícil perceber o total desacordo entre o jogador que é e o mundo à sua volta: o talento mais extraordinário que um brasileiro viu nas últimas décadas junto à pior geração da história da seleção; o talento mais extraordinário e uma pessoa banal; o maior potencial de vitória jamais concretizado; a beleza no jogo e a cafonice na vida; ser a expressão máxima do tal futebol arte e não ser querido pelo país.
Perceba: não que fracassasse em ser o gênio que o talento apontava: em campo, a verdade é que ele sempre foi tudo o que podia ser – justamente aí o drama, o romance, que nasce dessa contradição. Mas a comparação literária, percebi, mais dificulta do que facilita a questão, e por isso não vou seguir com ela. Neymar não é Aquiles, não é Dom Quixote, e eu não teria habilidade e inteligência para plasmar uma ideia limpa por essa via. Só esbocei o pensamento para ser honesto e mostrar os caminhos pelos quais vai passando a divagação vagabunda. – E, claro, para não dizer depois que eu não escrevi o que disse que escreveria -. Dito isso, vamos aos fatos.
Derrotas – Sai do Barcelona para ser o protagonista no PSG, para ganhar a Liga dos Campeões e a Bola de Ouro. Joga futebol de melhor do mundo em quase todas as temporadas. Faz partidas memoráveis contra Atalanta e Bayern de Munique. Entretanto fracassa. Não é campeão com PSG, muito menos melhor do mundo.
Final da Copa América 2021, uma atuação memorável. A melhor atuação individual que já vi em jogo de seleção. Insuficiente, porém. Argentina campeã no Maracanã. Curioso lembrar que o Neymar nunca ganhou uma Copa América. 2019 ele não estava.
Copa do Mundo, seu grande sonho… Não foi de jeito… Se se livrou do 7×1 em 2014, as lesões nunca o abandonariam, e desconfio que não chegou bem fisicamente em nenhuma copa depois. Mas talvez o maior exemplo de sua vocação para o fracasso seja 2022, quando faz um dos mais belos gols da história do Brasil nas Copas, arranca o time de uma dificuldade, faz tudo o que estava a seu alcance – que era muita coisa – e então perde.
Por que razão Neymar não venceu? Eu não sei. Não me interessa dar motivos também. Eu só estou pontuando que o papel dele na história, como protagonista da história da seleção brasileira e do futebol brasileiro, é receber o Não como resposta final. E talvez faça sentido. Com ele, morre a seleção; de modo que ele encena, numa só pessoa, toda a história do talento do futebol brasileiro que deve acabar. Neymar, o jogador mais talentoso que tivemos, é aquele que perde. Está vocacionado para a derrota.
Só mais uma coisa. Sou escritor impaciente e quero terminar de escrever esse texto mais do que você quer terminar de lê-lo. É que não posso deixar de falar de um detalhe. Você pode argumentar os anos de Santos e Barcelona como exemplos que contrariam tudo o que eu expus aqui; é fato, porém, que mesmo ele sabia que vencer era ser campeão do mundo e conquistar os títulos individuais que seu talento reclama. O curioso, no entanto, é que, mesmo na época vencedora, Neymar nunca caiu na simpatia do povo. O Neymar, pelo que percebo, sempre foi odiado. Por quê? Tenho uma teoria.
O ódio – Em primeiro lugar, O Neymar é odiado pelo jovem progressista. Mas o que é que o jovem progressista não odeia? Nesse caso, vão dizer da sua posição política fora do campo. Já o grupo que não acompanha tanto futebol ficará extremamente ofendido com os pecados contra o matrimônio. O que não deixa de ser irônico. É evidente que isso não explica tamanho ódio. Neymar não é o primeiro e nem será o último jogador a seguir essa conduta moral. Na verdade, sempre foi subentendido que o mundo dos jogadores fosse assim.
Outra fonte de ódio, e possivelmente onde há a maior quantidade acumulada, é a classe dos jornalistas, principalmente os mais velhos. Nunca um jogador foi tão desprezado, odiado, tido por tudo o que há de pior. Em campo, claro, nunca houve margem. É questão pessoal. Sempre falaram de um desacordo entre o talento excepcional e a personalidade medíocre. Hipocrisia. Não é também que os jornalistas brasileiros fossem alguma coisa para além da mediocridade. Inveja? Pode ser. Mas não deve ser a explicação de tamanho ódio.
Por fim, há outro fato que sempre me espantou nessa história toda, que é o ódio do brasileiro mais velho, conhecedor dos craques de outros tempos. Ao invés de ver nele um talento excepcional, viram um moleque mimado, cai-cai. Torceram contra, verdade seja dita. Aqui, confesso, há um bom argumento: é que o brasileiro em geral detesta toda novidade e portanto todo jogador jovem. Mas isso é insuficiente e é assunto para outro texto. Assim, afirmo o ódio ao Neymar por todos esses grupos e muitos outros, mas rejeito todas as desculpas. Nenhuma delas é satisfatória para explicar por que Neymar é tão detestável.
Normal que se busque racionalizar o desprezo que sentimos por alguém. Buscamos mil razões. Mas a natureza humana é mais sutil. O ódio costuma nascer de uma respiração desagradável, de uma mastigação que é alta demais e nos incomoda, de uma forma de falar estranha a nós, de uma inteligência e um talento que nos ofende, ou simplesmente de uma cara que não gostamos – como se costuma dizer: “não fui com a cara dele”.
E a grande questão, a meu ver, é a cara do Neymar. O rosto. É uma cara desagradável. Nós os detestamos por causa disso. Não por causa de política, moral, personalidade, maturidade, capacidade de diálogo e senso crítico. Nada disso. Ninguém se importa com essas coisas. Nós o odiamos por causa do rostinho dele. Especialmente sorrindo. Quando ele sorri, automaticamente você pensa que ele é um insuportável, porque tem-se a impressão de ser forçado, os olhos também riem, e ele faz de um jeito como se estivesse dizendo “ha-ha”.
Contra a Noruega, último jogo dele, último gol, última derrota e último sorriso. Tudo está presente: seu talento inigualável que o separa dos demais – inclusive com gol -, sua vocação ao fracasso em mais uma derrota; e a maldita cara que nos incita aos murros. Fim do maior jogador brasileiro.

