Mãos sujas

A mão. A primeira e até hoje a melhor mídia da humanidade. Ela media toda e qualquer tarefa, ela permite chegar a tudo. Elas, as mãos, né, no plural, porque são duas na maioria das pessoas. Revoluções, descobertas, possibilidades, tudo deriva do uso de mãos. No futebol, durante os 90 minutos, elas são proibidas para 20 dos 22 no campo. Mas se eu te disser que mesmo o futebol se ganha com as mãos e não com os pés?

No mundo da esférica, ela já suscitou o melhor debate sobre legalidade e legitimidade na história. Maradona usou a mão para fazer o gol ilegal mais legítimo de todos os tempos – pelo menos para os argentinos nacionalistas. Logo depois fez um senhor gol com os pés, mas aquele foi uma extensão natural, um acontecimento dentro do pórtico espiritual que o gol de mão abriu. O homem tem o pensamento, o pensamento sonha, mas é a mão que executa, a mão dissolve a fronteira entre o mundo das ideias e o chão da vida real. A mão desloca o homem da pureza da intenção e o joga para a responsabilidade do mundo. A mão é feita para se sujar.

Vamos a Kylian Mbappé, após o duríssimo Paraguai 0x1 França, pelas oitavas da atual Copa do Mundo: “acharam que iríamos para campo vestidos com smoking e jogar um futebol elegante, mas mostramos que podemos ser mais sujos que eles. Nós botamos a mão na merda”. Mão na merda. Que maravilhoso. É isso que se espera de quem quer ganhar a Copa! Essa taça dourada com as duas listras verdes, parem de romantizá-la! Ela não é um artefato religioso guardado num santuário há mil, dois mil anos. Ela tá aqui, na terra, nesta dimensão suja, impura e cheia de provas e expiações. Ela está imunda. Todos que a levantam estão com as mãos carregadas de dejetos!

(Se você está por aí espalhando essa historinha de que o Paraguai praticou antijogo e o escambau, lamento, mas sua cara é cheia de merda e espero que alguém bote as mãos nela o quanto antes. Tá bom, perdoe-me a exaltação, ainda estou furibundo com a eliminação precoce, mais uma, da Seleção).

Ah, o Brasil caiu da Copa, nestas mesmas oitavas-de-final. Raphinha não jogou na derrota contra a Noruega, mas começou a campanha como titular. Raphinha, aquele cara que em certa entrevista disse que não desgruda do seu creme de mãos, para garantir que as mãos estejam sempre limpas, bem hidratadas. Legal. Nada sobre os autocuidados do rapaz, aliás, meritórios; essa história de que homem tem que ser tudo ogro morreu tem década. Estou falando do simbólico: mãos banhadas a glicerina, óleo de amêndoas e manteiga de karité poderiam em alguma hipótese estar em contato com a mais suja, fétida e pastosa merda? Curiosamente, calha ser bem este Raphinha um dos jogadores mais omissos, senão o mais, em todos os jogos em que a Seleção está precisando se sujar. Onde se quer chegar assim? O que uma mão foi feita para tocar? O que acontece com um homem cujas mãos nunca tocam nada impuro?

Lady Macbeth, a personagem de Shakespeare, após coagir seu marido Macbeth a assassinar o Rei Duncan, tenta lavar as mãos. Lava uma, duas, três vezes e nada de a sujeira sair. Quem meteu a mão na merda não se limpa. Depois ela saiu andando pela casa, sonâmbula, gritando “out, damned spot! Out, I say!” A mesma coisa disseram os jogadores da Seleção há um bom tempo: “fora, manchas malditas! Não quero me sujar!”. As mãos. Vinícius Júnior poderia ter usado-as para pegar a bola e bater o pênalti, sim senhor. Não estou atribuindo a eliminação a isso, aliás, que sempre rememos contra a sedução de explicar problemas grandes com momentos pequenos, o que sempre se faz em toda derrota da Amarelona, digo, Amarelinha. Estou citando uma anedota: ele, Vini, o homem-esperança do time brasileiro, como é Mbappé no francês, ao contrário deste, recusou-se a bater a penalidade quando mais precisávamos. Ele entregou a merda toda para Bruno Guimarães, que, convenhamos, vinha fazendo boa Copa mas, historicamente, é outro pouco acostumado a se sujar. Deu no que deu. Ou você bota a mão na merda ou a engole, não tem meio termo.

Em inúmeras tradições, os deuses, sujeitos mais poderosos, moldam. Moldura é a alegoria mestre da criação, com a imagem do oleiro sendo a mais recorrente. A criação nasce do barro, que não deixa de ser um tipo de merda sagrada: mistura de terra, água, decomposição e vida, que dá vida ao primeiro homem.

Na tradição a qual estamos mais habituados, temos Jesus Cristo. O Homem que, segundo o Evangelho, recusou-se a ser Rei de Israel, figura que jamais sujaria suas mãos; mostrou-nos, Ele, que o poder verdadeiro é exercido a partir do contato de mãos com o impuro, com o pecaminoso, com pés sujos, com leprosos, com feridos, com cadáveres. Seu par de mãos sagradas jamais temeu contaminação e daí veio, justamente, sua bem-aventurança. O que o homem é feito para tocar?

No futebol, ainda há uma narrativa do limpo, do polido, do que consegue vencer apenas com a técnica, sem se sujar, sem de seus poros sair a mistura fétida dos vencedores. Como triunfar sem entrar em conflito? Pura balela, meu compa. Puríssima balela. Os jogos grandes exigem feiura, morte para depois vida, fedor, textura desagradável. A França mostrou que para vencer é necessário um certo fetiche escatológico, ou pelo menos uma vocação para o feio, você entendeu.

A Copa está longe de acabar, e estas linhas são anteriores até mesmo ao próximo desafio francês, das quartas, contra Marrocos, que promete entregar uma merda bem maior do que já fizeram os paraguaios. Mas, sem medo: França já mostrou que, se tem alguém com vocação para a sujeira dos campeões, é ela. Parafraseando Machado de maneira literariamente desagradável: à mão do vencedor, as cagadas!

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