Por Felipe Lemos, Francisco Melo e Matheus Ghelli

O que nos motivou a produzir o relatório, além da qualidade da equipe, foi a ausência de conteúdo tático produzido sobre esta. Muito se elogiou, por motivos óbvios, o Mirassol de Rafael Guanaes, mas foram raras as referências ao que estava sendo praticado no campo. Comentários que transcendessem a “alta intensidade na pressão” e a “posse de bola independente do adversário” foram raros ao longo de 2025. Por quê?
Nos parece curioso. É o clássico caso em que a tática prevalece o talento, em que o trabalho sai vitorioso. Ou seja, os valores morais do fetiche analítico estavam pulsando para todo mundo ver. Ainda assim, poucos procuraram se aprofundar no modelo de Guanaes.
Em entrevista ao jornalista Guilherme Azevedo, da Placar, o treinador se declarou adepto ao ataque funcional em organização ofensiva. Opa! Temos uma resposta. Não seguir a cartilha da modernidade (mesmo com um jogo adaptado a exercer e superar pressão) é como estar fora do Linkedin.
Então cá estamos, com atraso, divulgando nossa análise do funcional Mirassol 2025. Afinal de contas, é para isso que o Ponto Futuro foi criado. Daqui em diante, o texto assume um caráter de resumo. Se quiser conferir a análise na íntergra, com todos os gráficos e vídeos, acesse o PDF no link:
1 – Análise Estatística
Dentre os treze gráficos construídos para posicionar o Mirassol no contexto do Brasileirão, dois chamam a atenção e merecem aparecer nessa síntese. Vamos ao primeiro. Quanto a ações no terço defensivo, entende-se passes trocados nas próximidades da própria área. Nesse quesito, apenas o Vasco de Fernando Diniz supera o Mirassol, destacando as semelhanças no princípio de atração que norteia as duas equipes.

E as semelhanças com o Vasco não terminam aí. No gráfico de ações por gol marcado, considerando a regressão, o cruzmaltino é a equipe que mais se aproxima do Mirassol. Os fatores camisa e casa elevam o número de ações de muitos grandes, porém não se aproximam dos gols marcado pelo modestro auriverde.

2 – Análise Tática
2.1 Organização Ofensiva – Tiros de meta e atração
Predominantemente constrõem em 4+2 + goleiro nas iniciações; a estrutura geral costuma ser 4-2-2-2. Tem, no entanto, muita nuance estratégica, com pouca coisa se repetindo jogo a jogo no estrutural-estratégico. Variações importantes são vistas no vídeo, mas o essencial é se ater aos príncipios que balizam o jogo da equipe. Atrair para acelerar, uso do goleiro para ter superioridade na saída, pausa e uso da sola dos zagueiros para atrair, volantes (geralmente em duplo pivô) dando a cara para receber e sempre escalonando, com o diagonal em relação a bola dando apoio por dentro e o do corredor da bola saindo dentro-fora. Aos meias, muita mobilidade e trocas.

2.2 Organização Ofensiva – Lado Forte
Saindo dos momentos em que estão com a bola no próprio campo, com o propósito de atrair para acelerar, costumam atacar com uma estrutura inicial de 3+1, com um dos volantes lateralizando e outro nas costas da pressão. A partir dessa estrutura, tentam criar um lado forte, com o volante lateralizado por trás, o 5 dando suporte em diagonal no setor e os meias caindo para a bola. Muitos conceitos da ‘paralela cheia’ (mais uma semelhança com o Vasco de Diniz). Além disso, tendem a deixar alguém aberto no lado débil para possível inversão e ter alguém ‘longe’ do lado cheio rompendo, conceitos demonstrados no vídeo presente no PDF.


2.3 Organização Ofensiva – Ataque à Área
Aqui, Reinaldo aparece com maior importância. Em geral, os ataques à área se dão em oportunidades em que atraem por dentro e jogam por fora; uma vez que o fazem, têm a bola no pé de Reinaldo como gatilho para atacar área em número; atacantes, meia oposto e, por vezes, até volante e lateral oposto. O principal é sobrecarregar os encaixes de área adversários com muita gente atacando o segundo poste.

2.4 Organização Defensiva – Pressão
Ao pressionar o adversário, o Mirassol trabalhar com encaixes ao longo de todo o campo, sem temer um mano a mano contra a linha defensiva. Com o desenho estrutural alterado pelas referências individuais, as distâncias são chave para a manipulação da saída adversária. A equipe de Guanaes explora a distância longa do extremo mais próximo à área e a trajetória do 9 para induzir saída lateral, enquanto os meio-campistas mantém distância mínima aos seus encaixes. O extremo oposto executa balanço e os laterais conservam linha até a posse demandar salto.

2.5 Organização Defensiva – Bloco Médio
Bloco médio costumeiramente em 4-2-3-1, utilizando o camisa 10 em encaixes ou no bloqueio do corredor central a partir de sombra e trajetória, aliviando a pressão nos zagueiros num primeiro momento. No meio-campo, geralmente aplicam encaixes por setor, sem perseguições longas. O objetivo aparente é induzir ao jogo lateral, contra saltos e coberturas. Quando o adversário acessa entrelinhas diretamente, os zagueiros perseguem no salto. Há também variação estratégica em 4-5-1 com o 10 como interior.

2.6 Organização Defensiva – Bloco Baixo
Bloco baixo de muita mobilização e comprometimento dos atletas. A partir do 4-4-2/4-2-3-1 usual, mantendo o princípio de não descobrir a bola, contam com muito comprometimento dos volantes 1) protegendo funil, próximos aos zagueiros e 2) cobrindo intervalos laterais em possíveis desajustes. Os extremos baixam até o fim e participam por vezes do encaixe de área no lado oposto, enquanto no lado da bola se relacionam com os laterais em coberturas. Aos zagueiros, resta encaixar na área, com orientação muito clara de não perder referência física do atacante. Defesa de área muito eficiente.

2.7 Bola Parada – Escanteio
De forma geral, o Mirassol está interessado em prejudicar a ação do goleiro no escanteio. Para isso, buscam intervir rapidamente na trajetória da bola. Dessa forma, a jogada mais utilizada pela equipe de Rafael Guanaes é a cobrança ao pé aberto na primeira trave, geralmente com Reinaldo na batida. Dentro da área, 4 jogadores atacam a bola e a zona do goleiro, e 2 (Jemmes e centroavante) ficam no lado oposto. No vídeo presente no PDF, é notável como os movimentos iniciais fazem os defensores confiarem no goleiro, que, em seguida é surpreendido por uma dupla antecipação.

2.8 Bola Parada – Lateral na Área
O lateral arremessado na área é uma arma cada vez mais utilizada ao redor do mundo. Com gol chave marcado contra o Palmeiras na reta final do campeonato, o Mirassol foi uma das equipes referências no assunto durante o Brasileirão 2025. Geralmente a partir de Reinaldo, o objetivo é buscar o alvo mais distante na área. 2 a 3 jogadores fazem movimentos de atração e fixação, criando um 1×1 isolado (Chico da Costa e João Vitor alvos comuns). É importante destacar que, pesando a área e criando essa ideia de ameaça, o Mirassol consegue criar espaço para arremessos curtos.

O caráter objetivo do texto é proposital. Queremos direcionar o máximo de pessoas possível para o relatório, e essa publicação serve como canal de acesso. Portanto, convocamos outra vez: acesse o PDF o link abaixo!
