O Neymar das nossas cabeças

Desde já discordo de quem, concordando comigo, sustenta que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrário de nós, mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas, na permanente edição da nossa memória, vão produzindo novos lances memoráveis. Tostão não fazia ideia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça.

Chico Buarque

​Rara, aquela límpida e plácida tarde dominical de 2012 perdura na memória como se ontem fosse; dela lembro-me bem. Palco de artistas jogadores, o Major Antônio Couto Pereira julgou necessário reservar duas horas de sua imponente existência para o desfile do travesso Neymar da Silva Santos Junior, jovem insubmisso, rebelde implacável. O Coritiba, outrossim destemido, abriu dois gols de vantagem – tentos cuja autoria ora desconheço, talvez porque há pouco aqui estivessem, na ponta dos dedos. Deivid e Lincoln? Ou Rafinha e Julio Cesar? Não me atrevo a palpitar. A memória por vezes nos trai. Ademais, hipnotizaram-me – eis a provável razão do esquecimento –, ato contínuo, os três escores de Neymar, um mais belo que o outro. Vestindo azul, a sorte do atrevido moleque então mudou nas três ocasiões em que arrancou pela ponta esquerda, deixou meia dúzia de zagueiros para trás com gestos lépidos e cortantes, e gentilmente enviou a pelota para o fundo das redes, feito quem finge inexistir o arqueiro adversário. Em um dos lances, o craque aplicou um drible da vaca, a exemplo do que cometera em Ronaldo Angelim naquela emblemática partida contra o Flamengo, de tal maneira a tornar a obra então recém-terminada ainda mais bonita que a agraciada pela Fifa com o Prêmio Puskás na temporada anterior. Quem me dera, pois é, quem me dera! se tão ilustre Menino da Vila apenas brincasse de ignorar goleiros; brincava ele também de transfigurar o mais coletivo dos esportes em lúdico passatempo individual: entre o garoto e a bola, entre a bola e o garoto.

Quatorze anos tardados, o Coxa deu para reencontrar o Santos de Neymar, agora veterano. Lembrei-me bem da estória de quando meu avô levou minha avó, no mesmo Couto Pereira, para assistir a Pelé sofrer revés simples contra os donos da casa, sob os auspícios do artilheiro Tião Abatiá. Lembrei-me ainda melhor do dia em que testemunhei, de corpo presente, a vitória do Príncipe sobre o oponente que o Rei não conseguiu derrotar. Resolvi, por que não, reviver a experiência.


​A taciturna e congelante quarta-feira de 2026 parecia-me menos convidativa que o simpático domingo de década e meia atrás. Nunca eu presenciaria, no entanto, um Gigante de Concreto Armado tão abarrotado. Às cadeiras se antecipavam quatro fileiras de gente em pé, em efeito borboleta que aboliu o repouso das rechonchudas nádegas dos associados durante a peleja nos setores com assentos. Dos cantinhos com baixa visibilidade, habitualmente desprezados pelos coritibanos, aficionados emergiam aos borbotões. Na arquibancada oposta àquela ocupada pela torcida organizada, que sói ficar vazia em partidas ordinárias, nem uma agulha mais poderia caber. Lacunas somente se verificavam na obrigatória divisória entre mandantes e visitantes e no setor reservado aos alvinegros, presentes em dois anéis e meio dos três disponíveis. Como eu, outros 36.099 inveterados fãs do ludopédio deslocaram-se ao Alto da Glória não só para dar guarida a suas respectivas agremiações de predileção, mas também para apreciar ao vivo um dos mais hábeis praticantes da arte do nobre desporto exibir em campo os luxuosos dons com os quais Deus lhe agraciou.


​O tal Príncipe, todavia, decepcionou-nos. O retorno do manto azulado, com o qual o mundo se encantara em sua passagem inaugural pelo Santos, parecia convir apenas para transformar a malfadada tentativa de repetição da História em tragédia farsesca. Léguas distante do gênio incontornável que um dia fora, o camisa 10 resignou-se, na primeira etapa, a um passe lateral para Gabriel Bontempo, que conduziu a bola por uns bons metros antes de cortar para dentro, arrematar pouco antes da meia-lua e estufar as redes de Pedro Rangel; na segunda metade, em tabela com o mesmo Bontempo, Neymar imiscuiu-se na área e chutou cruzado para fora sem perigo. Com a vitória de 2×0 assegurada no placar pelos companheiros, os restos mortais do grande craque nada geraram além desse par de momentos, não obstante o amplo e respeitoso espaço que lhe concederam os defensores do Coritiba – à exceção do valente beque Jacy. O tranquilo triunfo em confronto de volta da quinta fase da Copa do Brasil camuflou a presença indiferente de um indivíduo de ares sobrenaturais, que, no início dos anos 2010, provocava raios em céus sem nuvens país afora. No velho novo Neymar, aquela mesma camisa azul é uma roupa que não serve mais.


​Quatro dias depois, as equipes reiteraram o enfrentamento, dessa vez em São Paulo e no domingo, pelo Brasileirão. Levado a Itaquera, o jogo valia como última oportunidade ao eterno Menino da Vila de se mostrar para Carlo Ancelotti antes da convocação à Copa do Mundo, com expectativa de nova vitória – por goleada, preferencialmente – contra o débil adversário, desprovido de Jacy e de outros três importantes titulares. Diante de 45 mil santistas – e dos olhares meus e do treinador italiano pela tevê –, Neymar sequer deu passes laterais ou arremates para fora, a não ser uma clamorosa isolada no começo do certame: de dentro das quatro linhas, assistiu ao lançamento de primeira do português Josué Pesqueira, maestro coxa-branca, para Breno Lopes abrir o placar, logo aos 5 minutos da etapa inicial. Aos 19, igualmente de primeira, o uruguaio Joaquín Lavega acionou em profundidade Pedro Rocha, que deixou Adonis Frias no chão e presenteou o companheiro Lopes com mais um gol. Vinte minutos depois, o ex-palmeirense, algoz do Peixe em final de Libertadores, descolou por fim um pênalti, através do qual Josué fechou o caixão, antes até da ida para o intervalo. Impotente perante os 3×0 dos indigestos hóspedes e facilmente anulado por veteranos da estirpe de Thiago Santos e Rodrigo Moledo (este que, vale a menção, atuou 15 vezes nas últimas três temporadas, a contar com a atual), Neymar ainda foi vítima do descuido não se sabe de quem – se da arbitragem ou da própria comissão técnica – e acabou substituído sem querer por Robinho Jr.


​Inconformado com as más atuações do gênio que, há quatorze anos, vislumbrei anotar três tentos, cada vez mais fascinantes conforme deles volte e meia eu me bem lembrasse, decidi adentrar a rede mundial de computadores e reassistir aos tais golaços, constantemente outrora por mim e em mim reprisados sem o auxílio do vídeo-tape. Eis que, para minha frustrante surpresa, na primeira oportunidade em que o vi ao vivo, Neymar estufou a rede apenas 2 vezes, não 3 – sendo a segunda uma jogada sobremaneira ordinária, no rebote do goleiro. De fato, pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2012, no Couto Pereira, o Coxa inaugurara o marcador com Deivid, o artilheiro dos gols perdidos, e sofreu a virada nos pés do, à época, menino adversário. O empate, esse sim, parece-se com o que na abertura descrevi: deveras Neymar arrancou pela ponta esquerda e deixou meia dúzia de zagueiros para trás com gestos lépidos e cortantes; contudo, em vez de driblar a vaca, vide inicialmente eu cria, driblou Vanderlei, ulterior ídolo santista, e delicadamente finalizou em direção à meta, a caminho da qual a pelota ainda tateou o lateral adversário antes de entrar. Enfim, o 2×3 de súbito transformou-se em 1×2. A memória por vezes nos trai.


​Nesses anos todos, os gols que fez Neymar em minha cabeça – inclusive os que porventura inventei – findaram por revelar-se demasiado mais lindos do que os lances reais que o mero sujeito de carne e osso foi capaz de produzir. Combinada à ilimitada potência criativa da mente humana, a mágica desenvoltura das pernas de um craque absoluto logra conceber maravilhas tão tangíveis quanto inalcançáveis, porque imateriais. Sem embargo, o fato de não terem se deslindado em terra firme não subtrai destes lances a dádiva da existência. Podemos não os ter visto com os olhos, podemos não dispor de mil e um replays de seus mínimos detalhes, pero que hay, hay. As representações, os sonhos, as imagens e os esquemas mentais, afinal, existem, dado que com eles nos deparamos diuturnamente. Sem entrar no mérito de possíveis benefícios ou malefícios que trazem consigo, não há simplesmente como ignorá-los.


​Quantas milhares de jogadas antológicas de Neymar já não hão de ter se multiplicado na lembrança de milhões de brasileiras e brasileiros, no longo transcurso de uma carreira em reta final? Sabe lá. Ninguém se arrisca a mensurar, presumo, quanto menos Carlo Ancelotti. Avesso a divididas e muitíssimo astuto, o forasteiro não ousou desafiar a memória coletiva de todo um povo e tratou logo de convocar o camisa 10 à próxima Copa do Mundo. Concordo com quem, racionalmente, pondera que o atleta a ser visto em junho estará mais próximo daquele de atuações apáticas contra o Coritiba do que do protagonista de conquistas de Libertadores e Champions e League há mais de uma década. Concordo também com quem assevera que o Neymar das nossas cabeças e seus lances memoráveis são mera hipótese. Dito isso – e toda a gente apaixonada por futebol no fundo sabe –, não há preço que se pague por quaisquer chances de revê-los, por mais ínfimas que sejam.

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