
“Henry diz que todos temem o Real Madrid, e o Real Madrid teme o Barcelona. O Madrid, nos últimos 20 anos, creio que após o ‘dia do Ronaldinho’, naquele 3×0 no Bernabéu, em que ele fez gols e saiu aplaudido, a partir daí, acho que o Madrid ficou com medo. Após isso, ganhamos muitas partidas no Bernabéu, sendo que, historicamente, era difícil para o Barça vencer no Bernabéu.”
– Gerard Piqué ao Podpah
As pessoas discutem muito o “nível” de futebol de Ronaldinho Gaúcho no FC Barcelona aqui no Brasil, mas falam menos do que deveriam sobre a revolução que ele causou dentro do clube. Isso evidencia a importância de observar o futebol em termos estéticos. E falo de estética como ciência da percepção, não como algo necessariamente belo, não como “futebol arte”. Acho até importante pontuar que esse termo, na conotação que tem no mundo da bola, atribui um valor necessariamente positivo à arte para então cunhar o futebol como tal, o que, para mim, está equivocado.
Interessa-me mais o seguinte: existem linguagens próprias do futebol e existe a forma como são recebidas por quem está engajado com o jogo. A estética, nesse sentido, não é algo necessariamente belo; é o campo da percepção e a organização sensível do que vemos. É verdade que, do ponto de vista técnico e gestual, o R10 foi um jogador sublime. É verdade também que o encantamento que isso gerava tem impacto direto na percepção à qual me refiro. O ponto é que cabe fazer uma observação mais profunda disso, ir além da celebração espetacular do “futebol arte”.
O que o Ronaldinho fez na Espanha foi reconfigurar a maneira como se via, se sentia e se jogava o jogo. E essa mudança não foi só no FC Barcelona, mas também no rival Real Madrid CF. Como o Piqué menciona, o Santiago Bernabéu era um ambiente hostil, e, historicamente, o Barcelona não tinha facilidade em vencer na casa do rival. Ronaldinho transformou um Barcelona mórbido em um clube de futebol renovado, capaz de rivalizar novamente com o Madrid. Depois, dentro do Bernabéu, ele teve uma atuação tão apoteótica que o impacto foi suficiente para mudar o que seria o confronto a partir dos anos seguintes.
Um gesto que representa isso é a torcida do Madrid ignorando a rivalidade e aplaudindo-o de pé. Além de ser um momento em que ele subverteu os códigos rotineiros do jogo (rivalidade, inimizade, vencer, perder) e fez o adversário, apesar da derrota, reconhecer que presenciou algo especial, o medo começou a existir no Madrid, mesmo dentro de sua casa. Passou a pesar a vontade de repetir feitos como esse na casa do rival mais do que o receio de sair de lá humilhado ou sem pontuar. Isso não morreria com Ronaldinho, como sabemos.
E é aí que cabe dizer que não existiria Lionel Messi sem o craque brasileiro. Apesar de serem dois jogadores diferentes, com formas distintas de jogar, o grande carrasco da história dos madridistas só existiu como tal por algo iniciado pelo R10. Nesse e em outros sentidos, Messi foi o continuador dele no clube. Ou seja, esse jogo foi uma espécie de experiência fundadora, um momento que marcou a percepção, que permaneceu como referência e gerou outros episódios do tipo, funcionando de maneira similar para o que sucedia.
Quando o Piqué diz que o Barça agora se sentia confortável no Bernabéu, é devido a isso: o nascimento de outra forma de ver e sentir o rival, a própria capacidade e o ambiente do que até então era o pior estádio possível para o Barcelona jogar. Não acho que o Ronaldinho tenha ido ao Barça fazer um “resgate” do que eles foram antes dele e que estava perdido, como muitos sugerem. Acho que ele foi inscrever novas formas, novos sentidos e novas perspectivas.
