Joga pedra na Geni

“Você pode nos salvar, você vai nos redimir”

Finda a dúvida, fecha-se a lacuna. O que todo mundo pagava para ver aconteceu. Neymar vai mesmo para a Copa. O que todo mundo torcia. Sim, mesmo que de maneira inconsciente. Aqui é o Brasil, precisamos de gente para torcer e principalmente para apontar os dedos. O dulçor da raiva direcionada ou do amor bem aterrado são infinitamente melhores que o amargor de um vazio. Melhor ir num apedrejamento do que num enterro, porque a morte fecha todas as possibilidades. Neymar não morreu e vai para a América do Norte e o povo sabe por que. Como, quando, não. Por que, sim. Não existe nenhum, repito, nenhum cenário no qual não tê-lo supere a graça e a agrura contraditória de tê-lo.

Desde que surgiu, lá por 2009, com seu penteado calopsita e seu rastro de deboche, Neymar atraiu a raiva de todos. Lembra? Sempre “quebra esse moleque abusado” antes de “quero vê-lo jogar”. Amor vem depois, é quase um espelho da equação – primeiro sempre surge o conflito, a tensão simbólica, a inveja, o ressentimento. Porque aquele que se sente ameaçado sempre está mais atento à figura que o ameaça e chegará antes do que aquele que ama e está disposto a amar. Quem ama, ama sem objeto, é possível amar universalmente. Quem odeia, precisa de objeto para aterrar sua gosma, sua seiva escura da autoflagelação. Neymar é um destes símbolos instantâneos. Ele distribuía seus chapéus e canetas e o ressentido lembrava: ele é o cara que deixaria a menina que eu amava de quatro. Ele aproveitou as oportunidades para as quais eu fiquei na eterna espera. Ele chegava e ficava. Isso irrita. O Brasil o abraçou, mas sem antes atirá-lo pedras.

Por ironia caprichosa, calhou que nosso personagem era perfeitamente dado à negociação com o ódio. Quanto mais despejaram nele sua negatividade, suas críticas, suas insatisfações internas, mais ele crescia, ia lá e jogava bola, conseguia os resultados mesmo contrariando a pedagogia moral. Os filmecos da indústria maniqueísta ensinaram: é o vilão que fica mais forte desse jeito, não o herói – o herói cresce com incentivos, com gritos de “eu te amo” e o escambau. E depois ele depende de aclamação, precisa cortar a fitinha com a presença do prefeito da cidade. Você pode não ter percebido, mas Neymar no fundo nunca gostou disso – ele gosta é de ser do contra. A contradição é sua condição. A aclamação é para ele um tédio, porque, para merecê-la, é preciso fazer tudo certo demais.

Ele funciona como o que chega sem estar. Como falado acima: ele chegava, ficava… e saía em sequência. Leitura meio torta do filho pródigo. Se joga na Vila Belmiro contra o Remo é ponto certo da cusparada de marimbondo, mas quando bota a JBL para tocar, coloca o moicano na régua, enfia a camisa amarela e dá risada até da rachadura na parede, todos pensam: só ele pode nos salvar. É a Geni, do samba de Chico Buarque: odeiam-no e querem-no para salvá-los de si mesmos. O Zepelim chegou, e quem o pilota é o italiano Carlo Ancelotti, que magistralmente brincou com a dúvida, deixou a imprensa brasileira por seis meses salivando e já no dia 18 de maio, quando já se sente o cheiro das gorditas e quesadillas do estádio Azteca, decidiu: ele virá conosco e nos salvará. O povo sabia o por quê sem o como nem o quando.

Tecnicamente? Não, salvará de outro jeito. Descarregando a nuvem assombrosa lançada por quase todos da nossa crônica, os idiotas da objetividade, como dizia Nelson Rodrigues. Aliviando as pressões de Endrick, Rayan, Danilo Santos, toda a turma que debuta e dá esperanças para 2030. Atraindo atenções. Mas é no campo também, o campo do chão verde que é de energia, um campo quântico. Estamos familiarizados com isso, o futebol é um imenso efeito-cascata. A presença de um cara muda o comportamento do oponente, alteram-se as causas, efeitos, e assim abrem-se brechas para que outros aproveitem conscientemente – os Vini Júniors e Raphinhas – mesmo eles que, por própria conta, seriam insuficientes para provocar tais fenômenos.

Fugindo às esquisitas comparações a Ronaldo em 2002, há um caso muito mais próximo deste em Copas. Karl-Heinz Rummenigge, craque alemão, lesionou-se gravemente em 1982 e era muito mais prudente ao técnico Jupp Derwall abrir mão dele no Mundial da Espanha. Acontece que Derwall deixou de lado o jogo físico para jogar o jogo quântico: o quanto esta partícula move as outras? E este foi o princípio, tê-lo mais do que propriamente usá-lo. E assim foi. Foi jogando uns minutos aqui, mais outros ali… 

A Alemanha tinha um time bastante “certo”. Um meia certo e absurdamente regular, Manfred Kaltz, que jogava na lateral-direita (posição que, você sabe, não existe de verdade, é uma invenção da Matrix). Zagueiros certos, Forster e Briegel. Volantes certos, Wolf Dremmler e Felix Magath – este certo só em campo, fora dele mostrou-se um biruta total -, pontas certos, Pierre Littbarski e Hansi Muller; e, claro, Paul Breitner, um gênio, verdadeiro cracaço da pelota, mas já na fase da cadência. Tudo tão certo, tão equilibrado que, quando sai o terceiro gol da França em plena prorrogação, ninguém faz nada. Nem sabem como reagir. Semifinal de Mundial, a certeza precisava de desestrutura, alguém para dinamitar tudo. Aí você já sabe, e se não sabe, consegue imaginar. Veio Rummenigge para o jogo, aos 8 minutos do extra-time, fez um, deu passe para o gol do empate e ainda converteu sua cobrança na disputa que classificou a Mannschaft para final.

Portanto, deixem que Neymar ajude do seu jeito e que faça tudo como quiser. E reprovem-no à vontade. Se ele vencer, será a festa mais prazerosa da qual ele terá a honra de fugir. Deixará o legado pesado do heroísmo do hexa para outros menos votados, bons moços que irão fazer publicidade pelos próximos 20 anos com a pecha “fui hexa”. Enquanto ele volta ao Ney-Batmóvel e à Kings League, para o ódio de todos. Que odeiem. Joga bosta na Geni. Que ela é feita pra apanhar. E jamais fez questão do contrário.

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