
“Embora fatores mensuráveis de velocidade, força, direção e extensão sejam comuns tanto às pessoas quanto aos objetos em movimento, é bem evidente que os movimentos do corpo humano são amplamente diferentes dos das máquinas. Até mesmo nas ocasiões em que o homem faz um trabalho e em que as ações de seu corpo têm que cumprir requisitos da função prática, distinguem-se os seus movimentos segundo sua expressão pessoal.”
— Domínio do movimento, Rudolf Laban.
“Uma psicanálise das artes plásticas consideraria talvez a prática do embalsamamento como um fato fundamental de sua gênese. Na origem da pintura e da escultura, descobriria o ‘complexo’ da múmia. A religião egípcia, toda ela orientada contra a morte, subordinava a sobrevivência à perenidade material do corpo. Com isso, satisfazia uma necessidade fundamental da psicologia humana: a defesa contra o tempo. A morte não é senão a vitória do tempo.”
— Ontologia da imagem fotográfica, André Bazin.
“Sou a favor do povo e não dos príncipes, mas acredito que a mise en scène deva fazer entender o quão importante é o menor gesto de um príncipe, e quão importantes são as suas mortes.”
— Vittorio Cottafavi.
A MORTE DE UM PRÍNCIPE
Gênesis 3:19 nos diz: Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris. (“Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás.”) O homem como matéria transitória do universo. Deus teria nos criado a partir da terra, como a mais importante de todas as criaturas. Mas o pecado original alterou esse papel; a partir dele, o teísmo cristão diz que Deus, como punição, eliminou a harmonia entre homem e criação. Começamos a nos alimentar dela, lutar contra ela por nossa sobrevivência e, um dia, retornar à terra, pois agora seríamos finitos. O pecado original introduz o conflito e, portanto, altera o ethos da existência humana na criação. Se pensarmos então na morte como vitória do tempo, e no tempo como condição do existir no paradoxo “nascer do pó, voltar ao pó”, Santo Agostinho, no livro XI de Confissões, nos ajuda a pensar o que é essa vitória do tempo.
“Sabemos, Senhor, sabemos que cada coisa morre e nasce na medida em que não é o que era e é o que não era. (…) O que é o tempo? Quem poderia explicá-lo fácil e brevemente? Quem o compreenderá para expressá-lo em palavras, na fala ou no pensamento? E, no entanto, entre as coisas que nomeamos em nossas conversas, o que há de mais comum e conhecido do que o tempo? E certamente entendemos quando o nomeamos, e entendemos também quando ouvimos outros nomeá-lo. O que é o tempo, então? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas, se quiser explicar a alguém que me pergunte, não sei. Mas é com segurança que afirmo saber que, se nada passasse, não haveria tempo passado; se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro; e, se nada fosse, não haveria tempo presente. Logo, aqueles dois tempos, passado e futuro, em que sentido eles são, se o passado não é mais, e o futuro ainda não é? Mas o presente, se fosse sempre presente e não se tornasse passado, não seria presente, e sim eternidade. Logo, se o presente, para que seja tempo, há de se tornar passado, como podemos dizer, a respeito dele também, que é, se a razão de sua existência é deixar de ser? De maneira que não afirmamos com verdade que o tempo é, senão porque ele tende a não ser.”
A vitória do tempo se dá pela seguinte razão: o ser temporalmente já é caminhar rumo ao não ser. Isto é: a existência, incluindo a nossa, é uma caminhada rumo ao desaparecimento. Avançar já é, parcialmente, morrer. Enquanto seres transitórios e reféns do tempo, nós nascemos, sofremos transformações e então morremos. Nossa existência tende a ser um abandono contínuo daquilo que já fomos. Nesse sentido, o “retorno ao pó” é algo menos definitivo que um destino; diria que é a própria condição de nossa existência conforme avançamos.
Nesse sentido, nosso corpo é mais do que recipiente da consciência e meio para a conclusão de ações mecânicas. Ele é o nosso meio geral de ter um mundo, e nossos gestos desenham eles próprios os seus sentidos (Merleau-Ponty, 1945).
Enquanto tal, conforme aponta Rudolf Laban (1950), mesmo a menor das nossas ações é carregada de expressão pessoal. Nesse sentido, podemos nos entender como criaturas produtoras de sentido, capazes de inscrever subjetividade em nossos gestos, o que diferencia o movimento humano tanto da mecânica das máquinas quanto da pura funcionalidade biológica. Nossos movimentos comunicam algo de nosso ser interior.
E, se o ser no tempo é caminhar rumo ao não ser, então, sempre que nos movemos, estamos expressando algo que inevitavelmente irá desaparecer, tornando-se pó. É essa a tragédia da existência humana, mas também a sua singularidade: se um gesto morre, outro, que nunca é igual ao anterior, nasce. A finitude também é uma produtora de novidade.
E, se Maurice Merleau-Ponty ainda afirma que “o sentido dos gestos não é dado, mas compreendido”, numa relação interdependente entre os corpos, então a minha morte é também a morte do outro. Pois morre uma forma-mundo, uma maneira do mundo se manifestar sensivelmente no outro. Morre uma possibilidade singular de experiência coletiva.
Quando pensamos nos esportes coletivos de invasão, encontramos um rico campo para esse tipo de análise. Afinal, são atividades estritamente concentradas no corpo e nos gestos, cuja comunicação depende dos sentidos transmitidos através deles (por link de Adeus à Linguagem). Os meus movimentos dependem dos meus companheiros e dos meus adversários; as minhas ações já nascem condicionadas pelo todo.
Então, o que há de mais belo em um esporte coletivo, em resumo, talvez seja assistir a equipes produzindo novidade através da compreensão mútua. E o que há de mais belo em um jogador talvez seja a produção de novas formas e linguagens sempre que realiza uma ação. Assim são os grandes craques.
Assistir Neymar jogar foi sempre viver esse tipo de experiência. É claro que imitávamos seus cortes de cabelo, suas gírias e até mesmo seu estilo de vestimenta. Mas só porque antes o presenciávamos inventar novos mundos através da sua ambidestria.
Pensando em um momento muito questionado no Brasil da carreira de Neymar, sua passagem na França, recordo-me de ter sido um momento em que minha relação com o futebol se tornou ainda mais forte. Podemos considerar que esse foi o começo do fim de uma carreira que, sejamos francos, está próxima de acabar. Neymar fez 173 partidas de 327 possíveis em seis anos de Paris Saint-Germain. Um número apenas razoável para um período tão longo. Ao mesmo tempo, quantas vezes vimos algo tão impressionante quanto essas 173 partidas?
A maneira de jogar de Neymar em Paris, comparada à sua primeira passagem pelo Santos e ao seu período no Barcelona, mudou bastante. Na França, Neymar passou a funcionar cada vez mais radicalmente como um camisa 10. Sempre teve momentos de 10 desde que surgiu, mas o PSG recebe um Neymar em um estágio de maturidade e um nível de domínio do próprio corpo que possibilitaram ao clube revelar para o mundo o que foi, para o autor do texto, o melhor futebol da carreira do brasileiro.
Um jogador que parecia ter nascido para criar vantagens para os próprios companheiros, não em detrimento de si mesmo, mas em conjunto, imaginando soluções através das suas relações com todos os companheiros que teve no clube, sobretudo Mbappé. Sua segunda parceria com Messi é muito atrapalhada por limitações coletivas, mas Neymar seguia sendo o eixo criativo dessas dinâmicas.
São os desmarques de Mbappé, as aproximações com Verratti ou os momentos em que baixava para receber passes de ruptura de Thiago Silva que empregam sentido ao jogo de Neymar e vice-versa. O gênio segue singular, mas essa singularidade aparece também na capacidade de potencializar o outro e de organizar essas relações.
O fato de ele estar “sempre” lesionado apenas tornava tudo mais especial, apesar de mais trágico. Queríamos ver mais daquilo, e sempre precisávamos esperar. Fomos educados a admirar seus gestos já temendo o seu desaparecimento. Ao mesmo tempo, esse temor tornava a experiência mais bela e mais potente.
Presenciamos agora a “morte” de Neymar. Desgastado por lesões, mais velho, mais lento, mais fraco. Parece-me que deixá-lo ir não é fácil, para nós ou para ele. Toda a discussão em torno desse momento da sua carreira gira em torno de ele ser ou não ser o Neymar que conhecemos. Mas cabe perguntar: quem é esse Neymar?
É impossível resumir a vida de um homem em um texto, mesmo sua vida enquanto jogador, e mesmo sua vida de jogador enquanto forma sensível. O que podemos dizer é que esse Neymar é o que conhecemos e, ao mesmo tempo, não o é.
O corpo de Neymar, de tudo o que ele já foi, há de morrer lentamente, como o de todos nós. O que tende a permanecer é o gol driblando Ronaldo Angelim, a “remontada” contra o Paris Saint-Germain e os jogos da pandemia em 2020. Fases distintas de um mesmo indivíduo, que agora caminha para se despedir do futebol.
Mas desses momentos já me despedi há muito, no instante em que foram encerrados. A dor da despedida mora no fato de estarmos nos despedindo não do Neymar, mas dessa forma específica de o futebol aparecer, de uma relação sensível com o jogo e com o mundo. Porque é isso que ele foi, no fim das contas. Seus dribles são a história dele, a nossa, do Santos, do Barcelona, do Paris, da seleção, da nossa espécie, do universo.
Porque talvez seja isso o que somos: matérias transitórias produzindo gestos que irão morrer, mas cujo sentido perceptivo permanecerá embalsamado através da arte, das imagens, dos sons, do texto, e daqueles com os quais compartilhamos esses gestos, e no que irão inventar a partir dessa experiência
