La Scaloneta e as Metáforas da Visão

“Imagine um olho não governado pelas leis fabricadas da perspectiva, um olho livre dos preconceitos da lógica da composição, um olho que não responde aos nomes que a tudo se dá, mas que deve conhecer cada objeto encontrado na vida através da aventura da percepção.”

Stan Brakhage

Questionar o sucesso da Argentina nesta Copa do Mundo era, e ainda é, pertinente. Mais difícil que vencer uma vez, é vencer duas. E, nesses três anos e meio, todos os postulantes parecem ter se fortalecido. Um time de barriga cheia, sem o decisivo Di Maria e com a idade batendo na porta de alguns. Sempre jogando um bolão, é verdade, mas dando margem à dúvida pelos adversários escolhidos na preparação. Venezuela, Porto Rico, Angola, Mauritânia e Zâmbia. A desconfiança é natural.

Não me parecem naturais, porém, certos argumentos. “A seleção argentina será um fiasco pois não tem pontas de alto nível, não consegue atacar a profundidade e não pressiona o adversário”. Li e ouvi isso algumas vezes. Certo, todas as constatações são verdadeiras. Dizem respeito ao que se vê no campo. Resta a correlação com a vitória e com o bom futebol.

Vários quadros vitoriosos nos últimos anos seguiram por escolha a contramão do que se prega como moderno, e, apesar disso, os olhos de muitos ainda parecem viciados. Puxa-se uma cartilha para “ticar”, item a item, os elementos que constituem um bom time. Na ausência de um, falha a prova da objetividade. É vulnerável, insuficiente e não vencerá.

Assim, ignora-se por completo o que o campo tem a dizer. Pouco importa o futebol que é visto. Se é belo em si, e, claro, enquanto jogo, se é eficaz em si. O esporte é caótico o suficiente para que uma equipe vença com 11 jogadores dentro do próprio gol. Ainda que queiram transformá-lo em quatro quartos regidos ao rigor do replay, o futebol nasce e morre nas possibilidades. O que há de errado, então, nos cinco meias flutuantes de Scaloni?

A produção e a divulgação de conhecimento tático do jogo são, sem dúvidas, algo positivo. Porém, a forma como se propaga em verdades absolutas não cria uma lente, mas um espelho. A tática deixa de ser uma das várias dimensões do jogo e se torna a projeção de um arcabouço. Uma procura pela confirmação da lógica aprendida. A análise assume um movimento invertido, da ideia ao jogo, e não do jogo à ideia. Um fim e não um instrumento.

“Os devotos, que trazem pipoca para a mais banal sessão dupla, sabem que você ainda está nascendo e procuram pelo seu espírito nos sonhos, e ousam apenas sonhar quando em contato com seu reflexo elétrico. Sem o saber, aguardam os sacerdotes desta nova religião, aqueles que possam mexer, qual deuses, com as entranhas do cinema. Aguardam os profetas que possam projetar (com a precisão da pena de Confúcio) os caracteres desta nova ordem através da lama fílmica… Devotos inocentes não sabem que esta igreja também está corrompida.”

S.B.

Por que não se “aventurar na percepção”? Voltar aos olhos infantis, quando o futebol era estética e não ciência exata. Abrir mão dos conceitos. A Scaloneta lhe convida a entrar na dança, perceber os movimentos e sentir a mudança de ritmo. De encontro à bola, o solado da chuteira de Cuti, em longo respiro. Para que chegue De Paul e comece a bagunçar a ordem, com a calma de quem só quer ser pessoa. Vai Enzo, vem Mac Allister. É como olhar fixamente para o céu. Com invejável lentidão, as nuvens brancas se misturam no celeste e seguem o vento.

Até que todos sentem o momento. A bola rasga o meio campo e está nos pés do 10. Déjà vu. Como um astro, atrai tudo a sua volta e cria tensão. O então leve e prolongado tempo congela pesando tonelada. Ali, somente ali, em pinceladas soltas, a jogada acontece. A Argentina desmonta o relógio.

Há, sim, um controle orientado entrelinhas para fixar o zagueiro e gerar espaço de ruptura às costas da linha de quatro. Mas quando aquele corpo gira, vê-se o número 16. Thiago Almada. De Fuerte Apache, Buenos Aires, aprendeu com Carlitos. E com Messi, para quem hoje devolve a tabela. Envolvidos por uma mesma linguagem.

Como disse Matias Manna, auxiliar-analista da seleção argentina, “es mejor un asado que veinte charlas de vídeo”. Por trás do que é patente, há elementos tão determinantes quanto. E que não são alheios ao campo. O futebol nega a soma das partes porque estão sempre em diálogo. O chorizo mal passado atravessa o 4-3-3, e por aí vai.

“Imagine o jardim como você quiser – o crescimento se dá fundamentalmente no subterrâneo. Seja qual for o cuidado de todo dia, tudo nele se planta ao luar. Não importa a forma de sua lembrança, tudo nele se origina em outro lugar. Quanto à magia sem nome – ela é tão indescritível quanto os bosques sem fronteiras de onde se origina.”

S.B.

BRAKHAGE, Stan. Metaphors on Vision. In: SITNEY, P. Adams (ed.). Metaphors on Vision. New York: Film Culture, 1963.

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