
O Ponto Futuro está precisando de textos. Eu não escrevo desde novembro, Davi e Chicó desde setembro…a verdade é que Natanael vem carregando o site nas costas durante um período turbulento. Quem não acompanha as lives deve achar até que o projeto morreu. Porém cá estou, já que enfim recebi a luz de inspiração tão procurada. Torço para que isso estimule os demais.
Foi ouvindo ao prestigiado Charla Podcast, dessa vez entrevistando o multicampeão Edilson, que encontrei meu estímulo. O convidado contou um caso interessantíssimo sobre aquele Grêmio de 2017, time que já merecia alguma homenagem no site há muito tempo.
“Primeiro jogo da final da Libertadores contra o Lanús. A gente levando uma roda no primeiro tempo porque eles jogavam com o goleiro-linha e a gente não estava encaixando a marcação nunca, sempre sobrava um. Então, a gente vai para o intervalo, eu chamo o Renato e falo assim: ‘Professor, tá acontecendo isso e tá sobrando um. Só tem um jeito pra gente fazer: marcar pressão lá em cima, e nós vamos jogar de mano lá atrás. Todo mundo vai se garantir’. Aí o Renato falou assim: ‘Vocês têm certeza disso? Beleza, pode fazer’.
Final da Libertadores, irmão. Ganhamos de 1×0. Na segunda, ele reuniu todo mundo para o outro jogo da final: ‘E agora? Quero que vocês decidam. Como a gente vai fazer lá?’. Fizemos do mesmo jeito, marcamos pressão e fodemos os caras, surpreendemos os caras.
Se é um treinador que não consegue enxergar que o grupo tem lideranças também…Treinador enxerga muita coisa, acho do caralho as coisas táticas que muito treinador faz, mas quem resolve são os jogadores.
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Falta muito disso hoje pros jogadores, eles também opinarem mais. Os caras tão meio sem culhão.”
– Edilson, lateral ex- Grêmio, Corinthians, Cruzeiro e Botafogo, ao Charla Podcast
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De imediato lembrei do texto “Autonomia”, que publiquei em dezembro de 2023. Numa abordagem diferente da que escrevo agora, conceituei um pouco a ideia de liberdade no futebol, substituindo-a pela palavra autonomia, usada pelo apresentador Betão no meio desse papo com Edilson. Quando pensei em elaborar um ensaio ao redor dela, me vinham em mente os movimentos no campo, as decisões inusitadas, as quebras de expectativa. De jeito maneira uma intervenção tão direta como fizeram os jogadores do Grêmio.
E quando pensamos em Renato como treinador, exaltando a forma como maneja as personalidades, também não consideramos uma deliberação dessa relevância com o grupo. Eu, pelo menos, me surpreendi com a história. O que não me surpreende é ter sido ele o treinador envolvido. Como os leitores mais assíduos sabem, a linha editorial do Ponto Futuro tem um compromisso com o professor Portaluppi. Mente por trás de times referência naquilo que chamamos de ataque funcional, Renato é um dos treinadores contemporâneos que mais concede autonomia a seus jogadores.
Boa parte da mídia esportiva usará esse caso, acredito, como mais uma comprovação das limitações de Renato. Dirão que até os jogadores foram capazes de perceber o problema tático da equipe, e que tiveram que resolver o problema pelo “paizão”. Todavia, como bem apontaram os apresentadores do Charla, sempre muito corretos quando a conversa penetra esses assuntos, isso só evidencia as qualidades do ex-técnico tricolor. Saber ouvir e elaborar a equipe a partir de quem faz a coisa acontecer.
É claro, nem todo jogador goza da lucidez tática de Edilson e Geromel. Porém (quase) todo elenco conta com essa categoria de liderança. E, infelizmente, poucos times têm um treinador da inteligência de Renato. Ao mesmo tempo em que o conhecimento sobre o jogo está mais registrado e divulgado, a demanda por soluções desenvolvidas pelo próprio jogador se reduz. Hoje, boa parte dos modelos propostos pelos técnicos buscam decidir pelo jogador, em todas as fases do jogo, desde as categorias de base. Se pedimos “culhão” aos jogadores, precisamos refletir se o jogo vem demandando essa autonomia.
Trabalhando em contato direto com jogadores, fica cada dia mais claro para mim que a relação entre treinador e treinado é desconsiderada em seus pequenos detalhes e sua grande volatilidade. Por vezes falta ao atleta falar, muitas vezes falta ao técnico ouvir, e os impactos disso na sequência da temporada são determinantes. Talvez isso passe pela subvalorização geral (principalmente dos personagens externos ao clube, que interferem e muito no ambiente interno) do conhecimento do jogador sobre a própria profissão, e a dificuldade de entender as distintas formas como ele se expressa.
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Para quem quiser se aprofundar mais no que aconteceu na final, segue uma análise da marcação do Grêmio com base na fala do Edilson.
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Finalizo esse sinal de vida com um pedido ao público: cobrem os autores por textos, principalmente a mim!
Cuspe na cara, fala na tora/Tenta mudar essa porra
“Alaska, Pt. 2”, Froid